Carreira

O que você diria no Twitter se não fosse jornalista?

Izabela Vasconcelos
Você já pensou em soltar o verbo no Twitter, mas se arrependeu e voltou atrás? Após a divulgação de seis demissões por comentários no microblog, profissionais de várias áreas, principalmente jornalistas, que convivem com o dilema da imparcialidade, passaram a agir com mais cautela nas redes sociais.
O Comunique-se lançou a pergunta no Twitter: “O que você diria no Twitter se não fosse jornalista?” e recebeu algumas respostas por e-mail. De acordo com os jornalistas, a grande vontade contida é a de criticar políticos. Apesar das polêmicas, os profissionais ressaltaram que o microblog é uma boa ferramenta para os jornalistas. Veja alguns depoimentos:
• “Já tive vontade várias vezes de tuitar sobre a prefeitura, por exemplo, que faz um trabalho porco aqui na cidade. As ruas estão cheia de buracos e a prefeitura gasta milhões para "reformar" uma praça. Eu também fiquei me segurando para não escrever nada quando houve a eleição da mesa diretora da Assembleia Legislativa. Foi uma bandidagem só. Quando acontece isso, eu passo para o meu amigo, que tem um blog. Tem muitos outros casos. Sem contar que não posso dar RT em alguns assuntos, né?
Já aconteceu de eu tuitar umas bobagens sobre comportamento de repórteres, mas fui orientada a não fazer mais, mesmo nunca citando o nome de ninguém”. (M.A - RO)
• “Se não fosse jornalista, desabafaria mais no twitter, certamente, abordaria questões mais particulares. Emitiria muito mais críticas aos governos e as instituições. Como atuo em uma empresa da Igreja não posso tratar de temas polêmicos que a envolvem, então também poderia emitir essas opiniões. Talvez provocasse mais e apontasse possíveis culpados de algumas situações de forma mais clara e direta.” (A.R – RS)
• “Uma ex-chefe descobriu que eu estava fazendo freela para o seu maior concorrente. O fato causou a maior saia justa, porém, ela levou pelo lado profissional e pediu apenas para que eu viesse a comunicar caso isso ocorresse novamente. Detalhe: acabei protegendo os meus tweets e coloquei aquele "cadeado" para aceitar apenas quem eu quisesse na hora ler os meus tweets. O passado do seu twitter com certeza pode condená-lo. Bom eu gostaria muito de poder falar abertamente sobre política, sobre atendimento de determinadas empresas, sobre a qualidade de determinados produtos, enfim, porém, atualmente eu tenho plena consciência de que uma única postagem possa prejudicar à minha carreira profissional, ocasionando inclusive minha demissão.” (J.C – SP)
• “Já tive vontade de criticar instituições, ONGs pelo trabalho que andam fazendo, mas como um dia posso acabar indo trabalhar nelas tenho que me conter e até me calar, mesmo sabendo que existem pobres no local. Afinal arrumar emprego na área jornalística é difícil aqui em Belém. Outra coisa é criticar colegas de profissão, vemos tuitarem coisas lindas, altruístas e a favor de boas causas, mas na realidade, fazem o contrário, então de forma discreta, sem citar nomes, na página digo o contrário e usando as palavras certas consigo atingir objetivo que é fazer a pessoa se tocar do erro que comete!” (M.P – PA)
• “Aqui no jornal que eu trabalho, que é regional, uma jornalista também foi demitida por declarações no Twitter. Ela cobria sessões na Câmara e criticou um vereador que não fala o português corretamente. A assessoria da Câmara seguia a jornalista, leu tudo, entregou para o vereador ele ligou para o dono do jornal. Não deu outra, a menina foi demitida. Acho que de certa forma existe sim uma censura aos perfis dos jornalistas, mesmo sendo pessoais. Já me contive em escrever porque sou monitorada por editores, pessoal de RH e até fontes. Outra moça que trabalha aqui na redação, por exemplo, já falou mal de uma fonte, comentário até desnecessário, e ela havia acabado de sair da pauta. Ou seja, se esta fonte seguisse ela no Twitter, por exclusão, saberia que o comentário se referia a ela. A "jornalista" não foi pega neste caso.” (J.S – SP)
• “Eu sou jornalista, mas já migrei para as novas mídias há meia década. Fui das primeiras a adotar profissionalmente o Orkut, Twitter, Linkedin. O assunto que mais me perturba é não poder citar marcas sem que as pessoas pensem que fui paga para isso, sinto que estou sendo eternamente vigiada só porque meu Twitter tem um bom número de seguidores.” – (S.S – SP)
• “Meu empregador anterior é muito ligado em Twitter. E ele, no entanto, praticamente me "proibia" de tuitar. Certa vez, fora do horário de expediente fiz uma menção a outro jornal e ele me ligou e ficou muito bravo. Isso porque colegas do outro veículo estavam nos defendendo. Outro "causo" foi uma discussão sobre um projeto que estimula o uso consciente de sacolas plásticas ( #DIA100SACOLA) em que um candidato a deputado estadual pediu para o pai dele, ligar para o meu patrão após eu dizer que ele por ser do PV, estava em uma antítese ao não apoiar o ambientalismo. O rapaz era do PV mas tinha uma fábrica de plásticos. Como eu questionei isso, levei uma "chamada" e fiquei muiiiiito brava (risos). Mas se eu não fosse jornalista, escreveria sobre TODOS os políticos do meu Estado. Mas todos! Principalmente aquelas coisas que fiquei sabendo como jornalista e que às vezes não podemos colocar no jornal.” (L.B – MS)
• “Eu falo tudo no Twitter. Óbvio que, com a devida ética e cuidado, porque meu pescoço é sensível à navalha, rs...Mas em linhas gerais, até por ser um colunista polêmico, sempre escrevo aquilo que, depois de checado, considero oportuno e interessante aos meus leitoresPenso que a vida pessoal do jornalista, na rede que ele optou por estar, não deveria ser correlacionada à vida profissional, embora isso seja mais utópico do que acreditar na libertação do Morro do Alemão.” (P.B – SP)
• “No meu caso é um pouco diferente porque eu não trabalho em veículo nenhum. Justamente por não ter mais "saco" pra joguinhos de imprensa, com o perdão da expressão. Trabalho com mídias sociais pra ser mais livre. Não tenho que fazer lobby pra publicar um post em um blog. Simplesmente publico e pronto. Ainda assim tenho que me conter, porque a cidade é relativamente pequena, o Facebook está infestado pela "burguesia", os bons clientes fazem parte do jogo. Mas ultimamente ando sem paciência, meio verborrágica, rs.No geral, poderia usar a rede pra fazer diversas denúncias de pilantragens políticas que os jornalecos encobrem, as pessoas me procuram no comunicador do Facebook pra confidenciar falcatruas que ficam sabendo.” (S.F – SP)

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