Delas: comportamento II

Hematomas e enxaqueca
Mas porque alguém se sujeita a uma situação como esta? A resposta, muitas vezes, é simples: a pessoa precisa do salário. Uma paulistana que prefere não revelar seu nome conta que este é o seu caso. “Atualmente, eu trabalho em um local que detesto e que me deixa doente. Tive hematomas na pele, enxaquecas recorrentes e desenvolvi uma gastrite nervosa. Sempre soube que é o trabalho que me causa tudo isto. Não tenho como pedir para sair porque preciso do dinheiro. Não compartilho dos mesmos valores da empresa e dos meus colegas de trabalho. Os conflitos não são resolvidos e todo mundo acaba se estressando”.
Ao contrário dela, nem sempre a pessoa consegue detectar que sua insatisfação com o emprego está causando prejuízos em sua vida pessoal. “Muitas vezes um médico do trabalho consegue estudar o problema e encontrar o seu foco com mais eficiência do que quem está nesta situação. O distanciamento do conflito é importante para se conseguir um diagnóstico e um tratamento adequado”, ressalta Duílio, que vai relançar o livro “Psiquiatria Ocupacional” (Ed. Atheneu).
A paulistana conta que até pouco tempo atrás estava estagnada e completamente desanimada. Presa a uma empresa que não dá valor ao seu trabalho, começou a se sentir “descartável”. A frustração acumulada acabou interferindo no seu relacionamento amoroso. “Chegou um dia que meu marido me disse que não aguentava mais ouvir minhas lamentações e meu negativismo. Ele me fez enxergar que, se eu não tomasse uma atitude, iríamos ter problemas em nossa relação”, revela. Depois disso, resolveu mudar de emprego. Ainda está procurando algo em sua área, mas já visualiza uma solução.
“Eu aceito até mesmo um salário um pouco mais baixo. Eu preciso respirar um ar novo. Não posso continuar nesta situação de adoecer por causa do trabalho. Quero me sentir útil e contribuir com a função que desempenho”, diz.
A empresa tem prejuízo
Se muita gente sofre e põe sua saúde em risco pelo emprego, por outro lado, essa dor também não é um bom negócio para o empregador. “Um funcionário desmotivado e desinteressado é ruim em vários aspectos. Ele gera custos médicos importantes com faltas e licenças. A empresa que investe em qualidade de vida no ambiente de trabalho tem ganhos financeiros significativos”, explica Thalita.
Mesmo quem não falta, não dá lucro. “Ao contrário do ‘absenteísmo’, quando a pessoa não comparece ao trabalho, existe o ‘presenteísmo’ que é estar presente, mas com sintomas leves de alguma doença ou distúrbio. Os mais comuns são dores nas articulações, dor de cabeça, alergias, asma e problemas emocionais. Muitos estudos mostram que o ‘presenteísmo’ causa um grande prejuízo”, aponta o psiquiatra.
Por tudo isto é muito importante que os gestores das empresas estejam sempre de olho nas mudanças de comportamento de seus funcionários. “A figura do líder influencia muito na motivação diária. Às vezes é difícil, mas o chefe precisa encontrar tempo para ouvir mais o que sua equipe deseja para o futuro, bem como resolver os conflitos existentes”, destaca a psicóloga.
“Na nossa realidade, é difícil escolher um emprego. São raros os casos em que a pessoa pode esperar por algo que realmente a motive. Mesmo assim, ninguém pode desistir de ter um trabalho prazeroso. O ser humano precisa sempre melhorar. Enquanto não há uma solução definitiva, procure conviver diariamente com pessoas que se importem com seu bem-estar e assim amenizar um pouco o sofrimento”, completa Thalita.

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