Delas: comportamento

Quando voltar ao trabalho é motivo de doença
Ambiente hostil, conflitos não resolvidos e falta de civilidade na empresa causam até doenças e reações físicas nos funcionários

Foto: Alexandre Carvalho/ Fotoarena
A advogada Alaíde Boschilia, que por oito meses passava mal todas
 as manhãs quando tinha que ir para um emprego hostil

“O trabalho enobrece o homem” é apenas o mais conhecido aforismo dos muitos sobre a importância do trabalho no nosso bem-estar. Muitas vezes, além da remuneração e da independência financeira que ela proporciona, um emprego é também a oportunidade perfeita de ser reconhecido por seu talento, fazer novos amigos e estar inserido em um processo de aprendizado contínuo. Muitas vezes. Mas nem sempre.
Para muita gente, voltar para o trabalho depois do feriado do Carnaval não tem apenas aquele gostinho amargo de fim de festa: é motivo de dor, sofrimento e até doença. Problemas, cobranças, relações complicadas, a culpa por não gostar do emprego quando muita gente gostaria de estar lá e, ainda, a impossibilidade de abandonar o ganha-pão, somados, tornam-se uma arma contra a saúde emocional e física de todos que estão inseridos nestes ambientes de trabalho hostis e prejudiciais. E os conflitos não ficam restritos a estes locais. Eles ultrapassam a barreira da vida profissional e afetam o dia a dia das pessoas, chegando a prejudicar relacionamentos amorosos, com a família e amigos.
“Muitas pessoas adoecem pelo sofrimento a que são submetidas no emprego. Entretanto, é preciso saber que o trabalho pode ser fonte de prazer. Hoje em dia nossa identidade está muito relacionada com a nossa profissão. Muitas pessoas se sentem orgulhosas do que fazem pelo que representam na sociedade, e com razão. Ser produtivo é algo muito positivo que traz um ganho significante de autoestima” explica Duílio Antero de Camargo, psiquiatra e médico do trabalho do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e membro da Comissão Técnica de Saúde Mental e Trabalho da Associação Nacional de Medicina do Trabalho.
Vômitos e tontura
Alguns anos atrás, a advogada trabalhista Alaíde Boschilia, 48, passou por uma experiência traumática. “Eu vomitava todos os dias antes de ir para o escritório. Sentia muita tontura e passava mal o dia inteiro. Procurei diversos médicos porque achava que era algum problema de estômago, mas descobri que não tinha nada de errado. Eu enfrentava um ambiente de trabalho terrível, mas custei até descobrir que era aquilo estava me deixando doente”.
A psicóloga clínica autora do livro “Motivação – Os Desafios da Gestão de Recursos Humanos na Atualidade (Ed. Juruá) Thalita Lacerda Nobre diz que, em geral, é possível detectar que algo está errado com alguém no ambiente de trabalho. “Dá para perceber que a pessoa tem mudanças de humor e comportamento. Passa a ficar mais irritada, dá sinais de um cansaço excessivo e adoece constantemente”.
Ironicamente, o emprego era uma das indicações para que advogada se recuperasse de uma depressão. “A minha médica me disse que eu precisava me manter ocupada porque facilitaria muita a minha recuperação. Então, eu decidi volta a trabalhar”, diz. Ela estava afastada do mercado há sete anos, porque morava fora do país. “Ir para aquele escritório foi a única oportunidade que tive naquele momento. Eu encontrei no trabalho uma razão para viver. Mesmo com todas as humilhações que eu sofria lá, tinha mais medo de ficar ociosa e enfrentar a depressão novamente”, desabafa.
Alaíde conta que ela não era um problema isolado. “Era comum ver pessoas chorando pelos cantos. Tínhamos um chefe arrogante que não aceitava opiniões diversas das suas. Ele era agressivo com todos que trabalhavam lá. Eu me achava um lixo. Ele fazia questão de deixar claro que eu não sabia fazer nada sozinha, que dependia dele para tudo”, revela.
Sua vida mudou quando recebeu outra proposta de trabalho e resolveu pedir demissão. “Até mesmo quando fui comunicar meu desligamento fui maltratada. Expliquei que ficaria um mês para que outra pessoa pudesse ocupar a minha vaga, mas ele mandou que eu me retirasse imediatamente. Depois daquilo, tudo foi diferente. No meu novo emprego eu era valorizada. Hoje, sou uma pessoa realizada, forte e segura”.

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