Luta contra a discriminação racial

Motivos para comemorar?

* Com Margareth Ferreira

 
Sou daquelas pessoas que olham o mundo pelas lentes do otimismo e sempre conseguem ver motivos para comemorar os êxitos  das lutas travadas pelo coletivo negro ao longo dos anos.
Promover a igualdade e a isonomia de tratamento para todas as pessoas independentemente de sua cor, raça ou etnia é nosso sonho, nossa meta e nossa missão, não podemos deixar de nos motivar com pequenas vitórias para fazer jus as grandes que ainda estão por vir.
Este ano teve até  a visita do Obama e sua família a Cidade de Deus, que também é parte do Rio de Janeiro.
 A televisão chamou o bairro de favela, o prefeito mandou dar uma maquiada no visual e o povo recebeu o negão com o maior carinho... Mas, isto aconteceria de qualquer forma, porque é assim que tratamos as celebridades nas periferias.
Afinal, o que temos a ver com os imperialistas americanos? Os caras que comandam a maior parte das guerras da atualidade? Os descendentes daqueles que instalaram as ditaduras na América Latina e patrocinam muitas das ditaduras na África?
Obama até que tentou responder minhas dúvidas, encontrando diversas semelhanças entre nós, tentando ser mais próximo.
Nós, os negros brasileiros vamos demorar um pouco mais para vermos pessoas negras sendo içadas aos maiores postos de comando do país. Temos perdido e perdido lutas eleitorais. Aqui no Rio de Janeiro ainda não vimos senadores, prefeitos ou governadores negros, no máximo uma vice-governadora que logo em seguida perdeu a eleição de forma drástica... e para alguém muito pior politicamente...
O avanço da internet fez os negros e negras despertarem para as mídias mais democráticas e contribuiu para a difusão e o compartilhamento de nossas informações, isto pode nos ajudar no futuro próximo. Isto é uma vitória concreta.
Mas, ainda tem gente por aí que se alimenta e se mantém com a disputa espaços dos próprios conquistados pelos próprios negros, espaços pequenos, sem poder algum, e, ainda subalternizados pela hierarquia banal de uma sociedade que ainda não se acostumou com a diversidade.
Muitos negros e negras não acompanharam o desenvolvimento do mundo e os novos tempos da industrialização criativa.
Sim. Existe sempre um motivo ou outro para comemorar e se não percebemos isto, corremos o risco de ficarmos céticos demais, incrédulos demais e por conseqüência, incapazes de relaxarmos e vivermos melhor os nossos momentos.
Minhas perspectivas atuais são as de que a única forma de nos libertarmos dos velhos hábitos de fragmentação de nossa militância, implantados ao longo dos anos pelo período de colonialismo português é a prática contínua do diálogo, rumo ao entendimento, superando as diferenças ideológicas, partidárias e até mesmo pessoais.
Por aqui, nas terras de Cabo Frio, cidade que ostenta o título de ser a que tem o maior número de instituições de ativistas negros do estado do rio de janeiro depois da capital, a comemoração foi tímida, mitigada pelos efeitos da abertura da Semana Teixeira e Souza e todo o seu brilho e valorização oferecida pelos nomes ilustres trazidos de longe, em substituição ao espaço para a exposição de idéias das lideranças cabo-frienses.
O importante, como na visita do Obama é o lúdico, o protocolar e a trégua que nunca virá.
Pela frente um árduo e permanente trabalho de busca constante de ocupação de maiores espaços no poder.
Axé!

* Advogada militante nas áreas de Direito do Trabalho, Família e Direitos Humanos.
Ex-Presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da 20ª subseção da OAB/RJ
Fundadora do AFROBÚZIOS
Ativista do Movimento de Mulheres Negras e membro do Diretório do Partido dos Trabalhadores de Cabo Frio
Atualmente exerce a função de Superintendente de Promoção da Igualdade Racial do município de Cabo Frio

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