DIÁRIO DE ALEXANDRIA

INCERTO OCIDENTE

            Não faz mais do que cinco séculos, nós, distraídos habitantes ocidentais, construímos uma percepção linear do tempo.
            As cronologias de que dispomos falam em começo e fim, em gênese e teleologia. Fomos educados para sempre recomeçar, talvez o mais extraordinário legado do cristianismo.
            Reconhecemos que as ações humanas não são irreversíveis, de modo que sempre podemos re-escrever nosso destino, re-significar nossas simbologias, perdoar a quem nos ofende ou tem ofendido. Enfim, esquecer é sempre um modo de lembrar.
            Então, os acontecimentos assombrosos e pouco edificantes a que nossos jovens hoje assistem não podem ser o começo de nada. São antes o fim de uma época.
            É possível que nosso país, encravado no extremo ocidente americano, venha sofrendo uma transformação de tal modo profunda que já não dispomos de dispositivos mentais e psicológicos para compreender o que nos ocorre.
            É possível que nossas elites, sobretudo políticas, não estejam à altura dos desafios da modernidade e, por consequência, bagatelizem e simplifiquem o que é, de natureza, sofisticado e complexo. Banalizam o mal, com todos os riscos aí contidos.
            De todo modo, existem os jovens que não podem ser alienados de sua maior riqueza, quase um direito natural: um futuro eticamente relevante.
            Em meio a nossa perplexidade, com a ausência de critérios e de referências, sob a cordial tutela da pós modernidade, tudo passa, como areia fina no vento do deserto. Lembra o que um dia, ou uma noite, escreveu
Dostoievky: se Deus não existisse, tudo seria permitido. Sensível resposta ao mote escandaloso de Nieztsche: Deus morreu.
            Neste quadro de referências, a cidadania torna-se refém do déficit ético em nosso tempo e nos recusamos a assumir a grave missão de reconstruir a ética cidadã.
            Mas não somos nós quem vai dizer qual ética seguir. Estas lições de hegemonia moral não querem dizer mais nada. É preciso antes que nos digam os jovens como agir para mudar este cenário penoso.
            Ninguém lhes perguntou em que mundo gostariam eles de viver; como fazer para agir em nome de um recomeço, em nome de uma vida nova.
            Estamos nós convocados por nossa consciência política para que eles nos confessem suas ansiedades. Como construir um mundo eticamente saudável? O que devemos fazer para mudar este quadro de indiferença moral? Como promover o encontro limite entre cidadania e ética? Como recuperar a fé na verdade do outro?
            Seguramente, aprenderemos muito, porque, como homens civilizados, acreditamos no poder do consenso discursivamente construído, a partir da pluralidade de atores, de cujo nome às vezes não queremos recordar-nos, mas chama-se Democracia.

CARLOS SEPÚLVEDA


     

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