Artigo

Pela proibição das armas
Kennedy Alencar
É natural que o jornalismo queira entender as raízes da tragédia de Realengo, no Rio de Janeiro. Trata-se de um episódio triste sem precedentes no Brasil, "esse país maravilhoso sem guerras, sem terremotos, sem ódio racial", como reza o clichê.
O que sabemos até agora sobre Wellington Menezes de Oliveira ainda é muito pouco para um juízo sobre as causas do massacre dos estudantes. Por ora, a carta que deixava clara a intenção de morrer é o dado mais esclarecedor. Há moralismo sexual, fanatismo religioso, uma defesa dos animais oprimidos pelo homem. O noticiário acrescenta a possibilidade de Wellington ter sido vítima de bullying, num grau ainda não sabido.
Nos próximos dias, o jornalismo e a psicologia deverão dar contornos mais nítidos à fotografia sombria de Wellington. É importante que os especialistas estudem seu passado e o analisem. Mas também é importante que as palavras dos "especialistas" e "jornalistas de paredão" sejam vistas com cautelas. Não é preciso demonizar ainda mais Wellington. Seus atos já se encarregaram disso.
Que a comoção gerada pelo massacre sirva de oportunidade para que o país discuta com maior profundidade a violência entre os jovens, a proibição do comércio de armas para civis, o papel dos meios de comunicação na banalização da violência e do sexo e a vigilância de nossas fronteiras para combater o tráfico de drogas e de armas, entre vários outros temas.
O real valorizado, a ameaça inflacionária e a reforma política são assuntos de relevo. No entanto, há mais temas fundamentais da cidadania que nós, jornalistas e cidadãos, relegamos a um segundo plano. Tragédias como a do Rio têm o poder de mobilizar a sociedade a prestar mais atenção nesses assuntos.
É pouco, como já cogitava o governo federal, adotar medidas de restrição à compra de armas. O comércio legal para civis deve ser proibido. O ilegal, duramente combatido. Repetindo: não faz sentido permitir a comercialização de armas para civis. A legislação deveria ser muito dura. Não bastaria apenas proibir, mas penalizar com gravidade quem comprar e vender armas. O Congresso faria um bem danado ao Brasil se aprovasse leis nesse sentido.
No Brasil, é fácil arrumar uma arma. Na capital federal, basta dar uma andada pelos estacionamentos públicos do Setor Comercial Sul para adquirir um revólver. Na Rodoviária de Brasília, há comércio de drogas como o crack. Isso tudo no centro do poder. Nas outras grandes e médias cidades do país, essa triste realidade é parecida.

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