Diário de Alexandria

SETE DO QUATRO
Professor Sepúlveda
Cabo Frio

...então aconteceu o cochilo. De Deus, que ficou distraído de nós.
            Nesses momentos (não ocorrem sempre) A Besta sai da toca, vem cumprir seu horrível destino, sua fome brutal, e a sede de sangue insaciável.
            A Besta escolheu um colégio, escolheu os humanos mais indefesos, as crianças, que não conhecem a morte, mas sabem o que significa o medo e a dor.
            A Besta fartou-se, saciou seus desejos imundos. Porque A Besta se alimenta e se fortalece com o pavor, com o terror de suas vítimas, e quanto mais inocentes, quanto mais indefesa, mais A Besta se farta.
            É que Deus ficou distraído de nós.
            O último banquete acontecera em nove de setembro. Foi uma festa e tanto; dois prédios inteiros em Nova Iorque. A Besta deliciou-se com mais de milhares de dores, com mais de três mil mortes.
            Mas a fome voltou, uma fome devastadora, uma sede implacável, de modo que a fome cega escolheu o Brasil, Rio de Janeiro, Realengo, uma escola, crianças, inocentes e delicados anjos. Cordeiros de Deus, que não retiram o pecado do mundo.
            É que Deus ficou distraído de nós.
            É que Deus ficou com preguiça de nós.
            É que nós contemplamos a tragédia, desesperamos por uma justificação, e não sabemos, não sabemos, não sabemos.
            É uma dor absoluta, infinita, incompreensível. O tempo vai agir e vamos viver com esta dor, mas ela continuará doendo, pesada como uma rocha, leve como a mão de uma criança.
            É que Deus está com preguiça de nós.
            Lição. De mãos dadas, corações pesados, vamos juntar nossas lágrimas e com elas deixar nascer um mar de longo, um oceano de dor coletiva, de aceitação, de conforto, de solidariedade.
            A dor ensina; o sofrimento, a gente aprende. Estamos sozinhos?
            Paz & Luz.

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