Momento colunista


O ESCRIBA

            Areia fervendo sobre o papiro, vento cortante nos ouvidos e a estranha sensação de que a tenda desabará com a tempestade. O escriba então se debruça sobre a folha em branco e espera as vozes, como nos sonhos. O deserto se desdobrava sob um luar comovente.
            Ele sabia que as letras, cuidadosamente desenhadas com o estilo, esperavam juntar-se em palavras para que fizessem sentido. Era como repetir o que já fora dito, em certos antes, ocultos, secretos, presentes. As vozes embaralhavam-se em sua cabeça e a madrugada, açoitada pela ventania, repetia os gritos e murmúrios. Não podia evitar.
            Foram muitos os sons viajando no vento, que chegavam a seus ouvidos e ordenavam-lhe, severas, que fossem escritas, que fossem escrituras para serem devoradas, porque eram como alimentos.
            Mas, por enquanto, só conseguira compreender vagos vocábulos: “Naquele tempo...”
            Sequer sabia escrever, mas escrevia. Escrevia porque era uma ordem; as vozes que gritavam dentro de sua cabeça, as vozes que ditavam as histórias com nomes enigmáticos, lugares absurdos, sobre os quais ele nada sabia e provavelmente nem saberia.
            A mão obedecia e os signos incompreensíveis esparramavam-se no papiro, da esquerda para a direita, velozes, elegantes, rudes sonoridades, imitando a aridez sufocante do deserto. A sede implacável obrigava-o a interromper, ocasionalmente, o transe, breves momentos, enquanto inquietava-se com as consequências terríveis que aquelas palavras poderiam comportar. As palavras rasgavam-lhe a garganta.
            As narrativas (como saberia?) se desdobravam, umas dentro das outras, que mãos ignotas haviam escrito antes e as vozes repetiam. As falas possuíam-lhe os sentidos, nada podia fazer, exceto cumprir a profecia.
            E o escriba as repetia, cumprindo a determinação dentro da cabeça, sem saber.         Era um pastor, cuidava de sua vida, que honrava seu Deus, que cumpria as tábuas de Moisés, como uma cega obstinação. Seguia seu povo na fé que herdara de seus pais, gostava de saber que Israel era seu povo e que era um servo do Senor Deus que o liderava. Jamais dobrara os joelhos para o Bezerro de Ouro, ou outro deus qualquer. Não cometera a impertinência de adorar outro deus.
            E agora, por que não podia ser apenas um anônimo pastor?Por que não podia regalar-se com o passar dos dias, na obrigação das colheitas, da ordenha, descansando um dia por semana, na obrigação de agradar a Deus? Por que não podia ser agraciado com o anonimato confortável e comum?
            Na sua casa, diziam que Moisés era um príncipe, não um camponês; afirmavam que o Baal era um animal de ouro, à vista de todos, pesado e feroz. Moisés falava de um Deus secreto, oculto, insensível quase secreto que se manifestava como nuvem inefável, vindo sempre para punir.
            Não. Não para ele. Viera-lhe a doença das palavras, as vozes na madrugada e a obrigação cega de fazer aqueles desenhos estranhos no frágil papiro, sob a luz rala da chama de uma vela.

            Antes dele, houve sete. Homens e mulheres gastaram as madrugadas escrevendo a história de um povo, numa pátria portátil, guardada numa arca dourada, protegida por dois anjos que se debruçavam guardando o Livro de mãos infames e olhares heréticos. A Grande Arca Dourada, mantida em secreta virtude, registrava os dias e as agruras do êxodo.
            Era aquele povo pedestre, marchando por já 40 dias e 40 noites, em busca da Terra de leite e mel, que ele pressentia na escrita incompreensível. Debruçado, então, em meio à ventania na madrugada silente, o escriba registrava, metodicamente, o que lhes sopravam as vozes, A Voz.
           
            Pressentia a morte. Alguma coisa lhe dizia que, ao terminar a rude escritura, encontraria o fim de sua existência terrena. Esperava poder partilhar da glória do Senhor, conforme lhe disseram as vozes.
            E suas mãos, hábeis, já escreviam, com furor, as palavras ditadas no meio do grande silêncio da madrugada.
            Foi quando o Mensageiro lhe apareceu.
            Veio envolto em uma aura de luz e fogo, tão brilhante que o cegava. De seus lábios não saiam palavras, mas ele podia ouvir o que lhe sussurrava.
            -- Estas são as palavras do Senhor, teu Deus. Tu as registraste conforme o costume. Agora, recolhe tudo, entrega o papiro a Moisés e descansa.
            Espantado, o homem retrucou.
            -- Mas sequer terminei. Ainda ouço as vozes.
            E o Anjo lhe disse, com alguma severidade.
            --Acaso ousas contestar-me?
            O escriba, envolvido pelo mistério do encontro, cumpriu a ordem. Recolheu o material de sobre a mesa, enrolou cuidadosamente o papiro e encaminhou-se até a Tenda do Encontro, lá estaria Moisés.
            Atravessou a pequena distância entre as duas tendas, sentiu a suavidade da madrugada profunda, afastou a areia dos olhos e entrou.
            Sobre a mesa, no centro, estava Moisés que o mirou espantado e perguntou:
            -- Terminaste? Sua voz era rude como as areias.
            O escriba acenou com a cabeça, entregou-lhe o documento e retirou-se.
           
            No início da manhã, o escriba morreu. Tinha em suas mãos as marcas da tinta e na boca restos de um papiro que devorara com gosto.
            Os Dez Mandamentos foram cuidadosamente depositados na Arca. As tábuas ficariam expostas a todos, mas o papiro seria preservado. Para sempre.
           

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