Diário de Alexandria

A VISITAÇÃO


QUEM é você que entrou na minha vida sem pedir licença?
Brisa devastando o cortinado, lançando ao chão velhos escritos  há pouco esparramados sobre a mesa...
Quem é você que, como o pão fresco da manhã, inaugura as surpresas do dia?
Escândalo de roupas no varal denunciando o vendaval que em nuvens sombrias se pressente...
Quem é você que se imprime como a curva sinuosa de um pássaro voando solo, ensaiando seu ritmo extravagante?
Quem é você que irrompe na festa de meus dias e me oferta frutos proibidos, do jardim das delícias de que jamais pude saber?
E promete o paraíso perdido, as glórias tardias, mas já frias, quando a noite cai e a flor se anuncia...
Quem é você, lúcido enigma, devastando rotinas, destruindo pontes, incendiando ontens, para que os oceanos se ponham navegáveis?
Quem é você que surpreende as tardes, deixa perturbada a lua, no fim da rua, entre as esquinas de silêncios?

É um copo de mar, que já não é de água, ou de qualquer líquida esmeralda, pousando na mesa rude, semelhando viagens impossíveis.
Quem é você que desperta o menino improvável, resgatado ao plenilúnio das madrugadas?
É que lentamente se encurva reverente a palmeira vergada ao vento e ensina ao fim desta tarde a lição noturna em que escrita está sua reverência.
Quem é você que, ao chamamento de aventuras, responde com a prudência dos que gastam a vida por escassez de loucura?
E de mãos pensas, palmilham estradas que nunca deveriam se enganar de caminhos...
Quem é você que não responde ao som do sino rouco, perdido numa avemaria qualquer, de uma cidade qualquer, em um qualquer lugar inconcebível?

E no entanto é desse vazio que se vive.
É dessa falta que se consiste, quem de humano só dispõe do vestígio das pegadas na areia fria e noturna...
Quem é você que invadiu meu ser e me fez ser o que não fui nem nunca serei?
Sendo.
E sendo senda, estou face a face com o Outro Absoluto.

E já a primeira estrela se prenuncia.
E já as ondas se recolhem no largo manto desse mar de longo.
E já repousam, penduradas no horizonte, todas as horas que jamais viveremos posto que a vida é curta; a arte, longa.
O resto é o silêncio das mãos vazias.

Quem à minha porta bate?
Eu sou aquele que urge recebê-Lo, Mestre,
Braços abertos, comungando o pão da humildade.

Entra, Rabi, a casa é sua!

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