Momento "Mídia"

Editor de jornal e repórter são demitidos após comentário no Twitter sobre morte de Alencar


Na última quinta-feira, o editor-assistente da Folha de S.Paulo, Alec Duarte, e a repórter do Agora São Paulo, Carol Rocha, foram demitidos do Grupo Folha após comentários no Twitter considerados inadequados pela empresa.

Após a morte do ex-vice-presidente José Alencar, no dia 29/3, o editor publicou em seu Twitter a seguinte nota: "Nunca um obituário esteve tão pronto. É só apertar o botão", referindo-se, implicitamente, ao próprio jornal. 

O tweet foi respondido pela repórter do Agora, criticando a atuação do site do grupo. "Mas na Folha.com nada ainda... Esqueceram de apertar o botão, rs", postou. Duarte encerrou a conversa: "Ah sim, a melhor orientação ever. O último a dar qualquer morte. É o preço por um erro gravíssimo", publicou o editor, em referência ao erro cometido no ano passado, quando a Folha.com e o UOL anteciparam erroneamente a morte do senador Romeu Tuma.

Os rumores da possível demissão surgiram ainda na quarta-feira, quando a ombusdman Suzana Singer fez uma crítica interna, enviada somente aos funcionários, repreendendo os comentários. Os tweets e a polêmica em torno deles foi assunto da coluna da Ombusdman publicada na Folha de São Paulo, no último domingo. "É insensível jogar na cara do leitor que há obituários prontos à espera do momento de sua publicação. Não faz sentido um jornalista criticar, publicamente, um site da mesma empresa", comenta Suzana, em sua coluna. 

Em seu blog, a repórter replica os comentários: "Os jornais subestimam a inteligência dos leitores. Para a ombudsman, não é bom lembrar os leitores que o jornal erra. Também não é bom admitir, em público, que o jornal que briga e exige liberdade de expressão pratica censura interna. Além do meu caso, quem não se lembra do Falha de S.Paulo?", critica Carol. 

Rodrigo Vianna: a Folha acha que jornalista é seu servo?


Na última quarta-feira, eu estava na porta do Hospital Sírio-Libanês, cobrindo a morte de José Alencar para a TV Record. No mesmo horário, dois jornalistas (um da Folha e outro do Agora — diário que também pertence ao grupo Folha) trocavam impressões sobre a cobertura jornalística do fato. Ressalte-se: trocavam impressões usando contas particulares do twitter.

Foram demitidos!
Nesse domingo, a “ombudsman” da Folha tocou no assunto. Suzana Singer, que foi minha chefe e a quem respeito, preferiu não dar os nomes dos jornalistas. Imaginou (presumo) que assim os “preservaria”. Como se a história já não estivesse na internet…
Na mesma coluna, a “ombudsman” dá a opinião sobre o caso:
... “e não deixa de ser desagradável lembrar um problema recente — a divulgação errada, pela Folha.com, da morte do senador Romeu Tuma”.

 Êpa! Peraí. Desde quando a Folha está preocupada com a “sensibilidade” do leitor. A Folha é o jornal que publica ficha falsa em primeira página, e que abre espaço para relato sem provas de que Lula teria falado em “currar” um garoto na prisão. E a Suzana acha que os leitores ficariam “sensíveis” se soubessem que jornalistas preparam obituários com antecedência?

Outra coisa: a Suzana acha “desagradável” lembrar um “problema” recente? Desagradável pra quem? Pros leitores? Ou pro jornal? O mundo jornalístico sabe que o jornal “matou” o Tuma antes da hora, ajudando assim a eleger o Aloysio.

Na verdade, na crítica de Suzana, a única justificativa plausível é essa: “Não faz sentido um jornalista criticar, publicamente, um site da mesma empresa.”

É isso que interessa na demissão: um recado para outros jornalistas – calem a boca! É atitude de velhos senhores de engenho. Se os empregados se reúnem para reivindicar melhores condições de trabalho, o “patrão” nem discute. Chama o capataz e manda dar uma surra nos líderes da “baderna”. Pra servir de exemplo!

Sob todos os aspectos, a demissão dos jornalistas parece-me absurda: os dois foram “punidos” por expressar, em perfis no twitter, a opinião pessoal. Ok, eles trabalham na Folha. Mas a relação não é (ou não deveria ser) do servo com o senhor proprietário da gleba. O jornalista, fora do horário de serviço, e longe das páginas que pertencem à família Frias, é um cidadão que pode e deve expressar suas opiniões e impressões. O jornalista vende sua força de trabalho, não o cérebro!

E há mais um ponto estranho. A ombudsman parece incomodada com o fato de a troca de tuitadas ter revelado um “segredo”: jornais, revistas, TVs e sites de internet preparam previamente obituários de personalidades importantes.

Ora, isso é tratar o leitor feito débil mental. É evidente que os jornais preparam isso tudo com antecedência. O leitor minimamente esclarecido sabe – ou intui – essa verdade. Ou alguém acha que tudo se materializa minutos depois da morte (na TV e nos sites) por mágica? Além do mais, se havia leitores que não sabiam, agora eles já sabem: jornais, sites, TVs e rádios preparam obituários — mas não querem que você, leitor, saiba disso!

O jornal que tenta calar a Falha (site de paródias da Folha, tirado do ar por medida judicial), o jornal que chamou ditadura de “ditabranda”, o jornal que é o mais vendido do país, é um jornal que demite profissionais que dão opinião no twitter.

A Folha acha que jornalista é servo da gleba? Não chega a espantar.

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