Oposição ainda junta cacos, mas já esboça eixo de ataque


Busca de enfrentar estilo Dilma
 
Silvia Amorim

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) conclamou semana passada, da tribuna do Senado, toda a oposição a se unir para promover um “choque de realidade” no país. A tarefa se revela ambiciosa diante do estado em que se encontram os principais partidos oposicionistas, PSDB e DEM. Mais do que superar crises internas e o distanciamento entre eles, tucanos e democratas avaliam que precisam renovar não só o discurso, mas a forma de agir. O diagnóstico é que o estilo discreto e cauteloso da presidente Dilma Rousseff desarmou a oposição.

Após três meses de gestão, líderes de PSDB e DEM concluíram que a fórmula usada pela oposição no governo Lula não surtirá efeito com a sua sucessora. Com o ex-presidente, as duas legendas se acostumaram a fazer uma oposição mais reativa do que ativa, surfando basicamente nos discursos polêmicos de Lula. Ele tinha uma agenda de eventos intensa, aparecendo em público quase diariamente, o que propiciava aos oposicionistas pautas suficientes para fazer o enfrentamento com o governo. Ela adotou discrição, o que dificulta o trabalho da oposição e funciona como uma blindagem.

“Lula dava mais gancho para a oposição”, diz tucano
Com Dilma, a fonte secou. As poucas aparições públicas e os discursos comedidos e sem improviso, que estão virando a marca da presidente, reduziram a voz da oposição.
- Ela adotou discrição, o que dificulta o trabalho da oposição e funciona como uma blindagem para a presidente. O Lula dava mais ganchos para a oposição - afirmou o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR).
- Lula era 24 horas por dia no palanque. Já a Dilma tem um perfil menos eleitoreiro, o que faz com que esse embate da oposição com o governo tenha que mudar de características - avaliou o líder do DEM na Câmara, ACM Neto (BA).
A preocupação da oposição é encontrar uma nova fórmula para recuperar espaço. Por ora, o entendimento, unânime, é que o caminho para sobreviver será fazer um trabalho sério de fiscalização do governo. Na tribuna do Senado, quarta-feira passada, esse foi um dos chamamentos de Aécio.
- Em relação ao governo, temos como obrigações básicas: fiscalizar com rigor, apontar o descumprimento de compromissos com a população, denunciar desvios, erros e omissões e cobrar ações que sejam realmente importantes para o país - discursou o mineiro.

DEM vai lançar “promessômetro”
É nesse contexto que o DEM prevê lançar na próxima terça-feira, na liderança do partido na Câmara, um “promessômetro” da gestão Dilma, painel que mostrará as promessas feitas na campanha eleitoral e em que pé está a sua execução. A iniciativa é inspirada no “impostômetro” de São Paulo, que mede a carga tributária e, alimenta os discursos da oposição.
- A fiscalização mais rigorosa das ações do governo é o caminho para não deixar que esse estilo da Dilma amarre a oposição - resumiu Dias.


Dilma tenta carimbar a marca de "presidente das mulheres"
Para especialistas, estilo da presidente representa ação de marketing e
imposição de estilo


Dilma toma café com a apresentadora Ana Maria Braga

Gabriel Mestieri 

Nos seus cem primeiros dias de governo, a presidente Dilma Rousseff concentrou suas viagens, discursos, eventos e entrevistas em questões ligadas às mulheres.
Primeira mulher a ocupar o posto mais alto do país, Dilma dedicou à questão feminina a maioria das ações divulgadas em seus três primeiros meses de mandato, como os lançamentos do Programa Rede Cegonha e do Programa de Fortalecimento da Rede de Prevenção, Diagnóstico e Tratamento do Câncer de Colo do Útero e de Mama.
Dilma aproveitou o Dia da Mulher, comemorado em março, para intensificar essa marca do governo. Além dos anúncios de políticas públicas, houve outros, de caráter mais simbólico, como a abertura de uma exposição de artistas brasileiras no Palácio do Planalto, e a realização de uma sessão de cinema com mulheres cineastas no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência.
Além disso, suas duas principais entrevistas desde que assumiu o cargo foram dadas a mulheres, em programas de TV cujo público é majoritariamente feminino – Hebe Camargo e Ana Maria Braga.
Após passar janeiro e fevereiro mais concentrada em agendas internas, como reuniões com ministros e outras autoridades – com exceção de Argentina e Rio, a maratona feminina começou logo no primeiro dia de março.
A presidente foi a Irecê, na Bahia, onde participou de uma cerimônia que deu início às comemorações do Mês da Mulher. Na ocasião, em que reajustou os benefícios concedidos pelo Bolsa Família, a presidente atribuiu o sucesso do programa às mulheres.

Marketing
O R7 conversou com dois especialistas em marketing político que têm opiniões distintas sobre a agenda feminina de Dilma. Coordenador do programa de pós-graduação em marketing político da USP, o professor Ivan Santo Barbosa vê nas ações de Dilma a construção de uma imagem. Ele diz que esta estratégia está dando certo, e uma prova disso são os bons índices de popularidade da presidente.
- Ela está sendo eficiente nesse discurso, porque pela pesquisa ela foi melhor que Lula e o Fernando Henrique nos primeiros dias do governo. E ela que não tem mesmo carisma nem do Lula e nem do FHC. É menos simpática, mas está tendo empatia com as pessoas que projetam nela a mandatária.
Já o cientista político Carlos Ranulfo, professor da pós-graduação em marketing político da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), diz que, mais que promover uma ação de marketing, Dilma está querendo impor um estilo próprio.
- Durante a campanha a oposição bateu muito na tecla de que ela era um preposto do Lula, então ela está fundamentalmente mostrando que isso era uma bobagem. Essa é a preocupação central: firmar um perfil dela. Eu acho que ela não precisa desse marketing da questão da mulher. Ela tem feito isso também, mas o mais importante, o que distingue, é que ela já impôs um estilo.

A respeito da participação de Dilma nos programas de Hebe e Ana Maria Braga, Ranulfo não considera que Dilma esteja querendo usar os espaços apenas para construir uma figura mais humana junto às telespectadoras.
- Não acho que ela precise humanizar imagem. Não é meramente uma questão de marketing.
Já para Barbosa, as entrevistas tiveram como objetivo uma aproximação com parcelas mais tradicionais da população.
- É um momento dela se colocar mais como uma mulher popular. Achei que foi uma estratégia interessante, porque com essas personagens líderes que representam um tipo de mentalidade mais tradicional ela também dá respostas para esse tipo de segmento.


“Brasil” e “mulheres” estão entre palavras mais repetidas nos discursos
José Henrique Lopes

Em cem dias de governo, a presidente Dilma Rousseff fez 31 discursos. Ao todo, mais de 51 mil palavras foram ditas, em pronunciamentos realizados em Brasília, em vários Estados do país e no exterior.
Dilma falou em sua posse, no dia 1º de janeiro, em anúncios e eventos relacionados a programas de seu governo, encontros com governadores, audiências no Congresso e recepções oferecidas a atletas, representantes de movimentos sociais e autoridades estrangeiras, entre elas o presidente americano, Barack Obama.
Neste período, as palavras “país” e “Brasil” foram as mais citadas pela presidente: 269 e 263 vezes, respectivamente, segundo levantamento feito pelo R7 com todos os discursos de Dilma entre 1º de janeiro e a última quinta-feira (7).
O nome do ex-presidente “Lula”, seu antecessor no cargo e padrinho político, apareceu 58 vezes. As palavras “mulher” (67) e “mulheres” (118) também foram ditas com frequência, o que indica a importância dada pela presidente - a primeira governante do sexo feminino a ocupar o Palácio do Planalto - ao tema da igualdade de gênero.
A presidente, que elegeu a erradicação da miséria como objetivo principal de sua gestão, falou a palavra "miséria” 38 vezes. “Pobreza” apareceu 44 vezes, “pobre” surgiu sete vezes e “pobres”, dez.
A sigla “PAC”, iniciais de Programa de Aceleração do Crescimento, menina dos olhos de Dilma desde os tempos em que era ministra-chefe da Casa Civil, foi pronunciada 24 vezes. O termo “desenvolvimento”, associado à meta do atual governo de dar continuidade ao bom momento da economia brasileira e oferecer melhores condições de vida à população, teve 65 menções.
Os temos “saúde” (88) e “educação” (83), que se referem a dois dos principais pilares da área social, também figuram entre os mais citados pela presidente. Foram ainda 63 referências ao “Nordeste”, região que votou em peso na candidata do PT e foi crucial para sua eleição, no ano passado.

Diferenças
Não é só o tom que diferencia os discursos de Dilma, mais contida, e Lula, famoso pelas piadas e improvisos que fazia em suas intervenções. Alguns termos que eram comuns na boca do ex-presidente perderam espaço com sua sucessora.
Um exemplo é a expressão “companheiro”, usada por Lula para se referir tanto a um colega de governo como a um presidente de outro país. Dilma, no entanto, proferiu a palavra apenas 22 vezes. O plural, “companheiros”, apareceu em outras cinco ocasiões.
A presidente, que na juventude integrou movimentos de luta armada contra o regime militar (1964-1985), foi presa e torturada, pronunciou “ditadura” somente duas vezes. “Militar” (cinco menções) e “militares” (seis) também apareceram pouco.

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