Carlos Sepúlveda em Diário de Alexandria

A ARCA

            Por muitos anos, perseguiu um sonho espantoso: construir um imenso barco, todo de madeira, no qual seria possível preservar um casal da cada espécie animal do mundo. Não sabe se também colecionaria os vegetais.

            A extravagante tarefa lhe foi sugerida, reiteradamente, em sonhos, desde sua fatigada existência. Aos cento e tantos anos de idade, percebeu a urgência da tarefa que lhe exigia completa dedicação.
            Durante anos a fio, perseguido pelas visões noturnas e vozes diurnas, devastou centenas de árvores, desenhou furtivos projetos e trabalhou diuturnamente na fabricação da arca. Muita paisagem foi por ele devastada.
            Os filhos, os genros, as esposas e netos não compreendiam as obsessivas razões dele. Sempre que indagado, jamais interrompia os rudes esforços, ao contrário, encolhia-se em mudo silêncio e voltava ao trabalho com redobrado furor e semelhante anonimato.
            Todos os dias da semana menos um, derrubava as árvores já escassas, aparelhava a madeira e exigia de seus filhos e genros o rigoroso cumprimento do que se revelava nos esboços. Os desenhos, incompreensíveis para olhos amadores, orientavam o cronograma da tarefa. Aos poucos, a imensa arca ia brotando do meio da floresta devastada, como um imenso castelo flutuante.
            Visitantes curiosos das aldeias próximas vinham testemunhar o enorme barco, tão grande que se levava pelo menos um mês para percorrê-lo de popa à proa, ousadia para poucos.
            Por mais delirante que fosse o trabalho, não se podia negar a destreza e operosidade do velho. Não se podia, também, negar sua coragem e determinação, embora ninguém soubesse a finalidade da tarefa, muito menos sua utilidade final.
            Os familiares dele, depois de cultivar por longo tempo um silêncio piedoso em torno do fato, permitiam-se alguns comentários reticentes. Admitia-se, à voz rouca, a possibilidade de falta de juízo, mas não era opinião unânime. Afinal, naquele tempo, deuses e homens dividiam o pão da intimidade todos os  dias e os sonhos eram páginas de um livro expostas à decifração coletiva, muito menos eram mensagens do passado. Se os sonhos se repetissem umas tantas vezes, cabia ao sonhador realizá-los por que não se devia desobedecer à vontade dos deuses. Vontades divinas indecifráveis eram destinos manifestos nos enredos oníricos a que não era aconselhável desobedecer. Muitos séculos passariam até que alguém os submetesse à situação de doloroso testemunho de inconfessáveis frustrações.
            Por mais que se tornasse fatigante e absurda a construção da imensa nave, era preciso levá-la adiante: um mandado de deus é suficiente em si mesmo e deve ser realizado.
            Assim, sabedores do destino do velho, os habitantes enfrentaram o desafio com descrença, mas com respeito e alguma devoção. Não cabia duvidar de sonhos, cumpri-los com fé era exigência irrevogável, sob pena de enfrentar a ira dos deuses.
            E o tempo passava e deixava suas marcas no disciplinado progresso da tarefa de todos.  A cada dia a arca aumentava seu tamanho já descomunal.
            Não se sabia, contudo, a finalidade. Não cabia perguntar, uma vez que o trabalho devia ser suficiente para se autoexplicar. Fazer era tudo, não havia espaço para dúvidas ou incertezas. Naquele tempo, as indagações ainda não faziam parte de nossos vazios existenciais.
            No entanto, certo dia de descanso, enquanto o ancião repousava sob a copa de uma das últimas sombras disponíveis, alguém, cautelosamente, perguntou-lhe para que construía a embarcação. Ele aprumou-se, desenhou distraidamente alguma coisa no chão e disse:
            -- É para conduzir um casal de cada bicho da Terra.
            -- Conduzir para onde?
            -- Não sei, conduzir, apenas. É só o que sei.
            E os dias corriam mansos como o grande rio que cortava a aldeia, um rio que ia dar nas águas da terra e para onde, um dia, imaginava levar sua arca cheia de bichos para cumprir o mandamento. Sem explicações.
            A embarcação, no entanto, crescia sem cessar. A cada semana, mais um pedaço era inserido ao vasto complexo, de modo que, para o assombro de todos, já não era possível ver o fim do barco, nem sua completa altura que varava as nuvens.
            O fatigado construtor, porém, confiava em que um sinal seria visível, nos sonhos, e ele saberia que a tarefa estava concluída.
           
            Isto posto, sem maiores explicações, certa manhã chuvosa de inverno, chamou os filhos, as esposas, os genros, os netos e toda sua descendência e anunciou que a tarefa estava concluída. Pela primeira vez, lágrimas correram por seu rosto gretado quando constatou que havia construído a maior nave do mundo e que nela iram navegar um casal de cada espécie animal, conforme rezavam os sonhos do Senhor.
            A finalidade, no entanto, nunca foi revelada, porque nem ele sabia.
            Foi, pois, com muita surpresa e igual pavor que a aldeia urdiu a conjectura de que os deuses achariam tão grandiosos os trabalhos que resolveriam enviar todas as águas do céu e dissolver a Terra. Pois, se foi possível construir uma obra humana com tanta habilidade, com tamanho domínio tecnológico, não fazia sentido não ter ela utilidade. Assim, pois, o dilúvio escapou da ira divina.
            E assim foi o mundo dissolvido em água no dilúvio que se seguiu. Apenas o velho e sua descendência sobreviveram à culpa e à tragédia.

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