Carlos Sepúlveda em 'Diário de Alexandria'



DO LIVRO VIRTUAL AO LEITOR VIRTUOSO

            Vivemos a aurora de uma segunda revolução de Gutemberg. A primeira, em 1453, ocorreu com o aperfeiçoamento dos chamados “tipos móveis”, que favoreceram, sobretudo, a portabilidade e circulação do livro. Aliás, o livro, com seus formatos quadrangulares, cabendo nas mãos do portador, nas duas mãos ou em uma só, possibilitou o surgimento de uma nova personagem na constelação sociológica da época: o leitor moderno.



            O formato-livro, uma sequência de folhas de papel distribuídas em cadernos, permite o repouso do objeto em prateleiras, sobre as mesas, na concavidade uterina das mãos, é, a meu sentir, uma das mais notáveis conquistas do “design”. O livro de Gutemberg foi uma revolução do formato, ganhou rapidamente dimensões universais porque resolveu o desafio da portabilidade e, consequentemente da circulação. Desde então, nos últimos 500 anos e mais um pouco, o livro tem sido um companheiro inseparável, uma voz portátil, cuja intimidade deixou Agostinho de Hipona assombrado porque falava para algo dentro de nós.
            Do latim, “librium”, também quer dizer “peso”, remetendo à ideia de concretude, de massa. Uma coleção de livros ganhou a nomenclatura de biblioteca, uma catedral devotada ao Deus do conhecimento, que domina o imaginário do Ocidente principalmente no assombro de seus incêndios. Alexandria é mais do que o nome de uma cidade, é o resumo de um tempo.
            A clássica indagação – hoje um cansado clichê – em torno de qual livro um náufrago deveria possuir, se perdido estivesse em uma ilha, é o testemunho desta inseparável companhia. Robinson Crusoé, que também se perdeu numa ilha, não dispensou de trazer para seu abrigo alguns livros restados nos destroços do navio em que viajou. Havia a bíblia (claro), mas também um livro escrito em português (língua desconhecida para ele) sobre uma rigorosa epopeia marítima: Os Lusíadas, de Luis de Camões.
            Felizmente, para nós, ocidentais, este extraordinário evento aconteceu na atual Alemanha, na cidade de Mogúncia, onde foram impressas as famosas bíblias de Gutemberg e de Mogúncia. (existem dois exemplares desta última no Brasil). Daí em diante, o milagre se espalhou e a Europa tutelou o progresso e o avanço civilizatório da Cultura Ocidental.
            Agora, porém, no século XXI, altera-se a portabilidade do objeto livro. Trata-se dos iPad’s, artefato tecnológico capaz de armazenar uma biblioteca com milhares de livros, reduzidos a bytes, na clássica forma quadrangular dos tablets.
            Não houve um Gutemberg, mas vários. Os ebooks, os livros virtuais, chegaram para modificar a portabilidade e a circulação, amplificando edifícios monumentais de ordem espacial e testemunhando a grandeza da inteligência humana, inventando pequenos objetos eletrônicos, leves e interativos. Um edifício de dez andares, com milhões de publicações, poderá estar compactado em um aparato digital com alguns centímetros quadrados de área. Tudo lá, acessível e, com o tempo, acessível a todos.
            Sem dúvida, mais um passo na direção do admirável mundo novo.
            No entanto, é preciso que este salto para o virtual seja comedido e que não signifique condenar ao exílio mental uma das mais ricas e profundas tradições do ocidente: o objeto-livro.
            Não se pode imaginar que o livro tradicional acabe tendo o mesmo destino da máquina de escrever em face do teclado dos computadores. O livro não merece ser extinto como uma “relíquia bárbara”, é demasiada arrogância e falta de senso de proporção.
            Não creio que devamos ignorar o que é virtuoso, submetendo-nos, acriticamente, ao mundo virtual.
            Claro que a maximização da portabilidade e a economia de espaços de armazenamento da informação são vantagens espetaculares, mas a tradição do livro, sua presença quase sagrada (conhecemos as religiões do Livro e não dos Bytes), seu simbolismo, serão descartados?
            Para a educação no contexto das sociedades de massa, o novo formato digital, com alto grau de interatividade, passa a ser uma necessidade. Nos Estados Unidos e em muitos outros países, já existem instituições universitárias que fornecem aos alunos TODA a bibliografia necessária para um curso, armazenada em um iPad. Isto é um avanço maravilhoso que vai resolver o problema da cultura do xérox. Mas o nó da questão não está aí, está na formação básica do leitor, durante a pré-escola e no ensino fundamental, onde se exercita a formação de cultura letrada.
            Não se pode chegar ao livro virtual sem ter vivido a experiência concreta da biblioteca e do livro tradicional. O suporte “papel”, quando trocado pelo suporte “digital”, aliena uma vivência indispensável: a vivência do livro como peso, cheiro, cor, volume, o livro como “librium”.O livro de papel é o que se pode dizer: meu livro. É nele que escrevemos nosso nome, na contracapa, muitas vezes.
            Todos chegaremos ao livro digital nos anos vindouros, sem dúvida. Calcula-se em uma década o triunfo desta tecnologia. Tudo bem, mas formaremos leitores? Ou: que leitores formaremos? Alguém descarnado da experiência sensorial do “meu” livro? Aprenderemos a amar o livro se ele for apenas uma imagem na tela, como nos amores virtuais vividos algures? É possível garantir o livre acesso de toda esta tecnologia aos pobres do mundo? Quanto custará isto às economias dos Estados?
            Não devemos queimar etapas. O livro-objeto é uma de suas dimensões, a outra é o livro “subjetivo”, aquele que reconstruímos em nossa mente e incorporamos ao patrimônio de nossa sensibilidade, profundidade e riqueza interior. Ainda é o mais poderoso instrumento civilizatório, pois é ele que muda nossa vida, que mexe com nossos sentimentos, é ele que fica sempre perante nossos olhos, ao alcance das carícias de nossas mãos. O livro costuma ser a flor acesa de uma paixão.
            Podemos simplesmente ignorar essas vivências ou podemos incorporá-las ao novo livro virtual?
            Também é tolice ignorar que o livro digital será mais acessível, mais barato, mais à mão, a partir da ampliação de sua base de oferta. As novas gerações, os jovens da geração Y, estão conquistadas por esta tecnologia, mas o que e quanto perderão?
            Dizem que só gostamos de propor perguntas quando já temos respostas para elas. Pode ser, mas, nesse caso, não parece possível descartar esta outra modalidade de acesso ao livro. O desafio é encontrar um “caminho do meio” entre a subjetividade construtiva do livro tradicional e a objetividade nervosa e utilitarista do livro virtual.
            Apenas nos surpreende o silêncio dos educadores face a este desafio. É preciso debater a questão sem paixões ou preconceitos.

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