Carlos Sepúlveda em 'Diário de Alexandria'

QUO VADIS

            Meu QUO VADIS sou eu mesmo. Sou eu e minhas sombras.
            Vida é trajetórias, assim mesmo, no plural, porque são todas as coisas que nos ocorrem e chega um momento em que sentimos a urgência de ponderar tudo o que passou.
            O poeta afirma não haver caminho, que o caminho se acha ao caminhar, assim como a essência do martelo se descobre ao martelar.
            Sim, há o momento quando meu QUO VADIS é o melhor que tenho a oferecer ao mundo, por isso escrevo. Escrevemos.
            Se existir alguma missão para o escritor deve ser a de povoar o mundo de beleza e, se possível, alguma verdade. Afinal, tudo é matéria de memória que se desfaz na bruma do tempo.
            Esta tarefa de rememorações assemelha-se à colheita, do trigo e do joio, pois, como predicou o Senhor, há de se tolerar o joio para não destruir o trigo.
            Então, cumprimos o delicado exercício de recolha, com os olhos infantis, escolhendo cada graveto da imensa e frondosa árvore como se fosse o galho, como fosse nossa própria pele.
            Faço cautelosamente nada das vinte e quatro horas em que dividiram os dias, acolhendo cada memória como a mônada grávida de luz e de recordações. Com elas enfeito os últimos ramos da árvore esplendorosa, plantada na incredulidade da sala de jantar onde festejamos um incomensurável Natal.

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