Carlos Sepúlveda em 'Diário de Alexandria'

O CAMINHO

            Um velho – talvez um sábio desgarrado das coisas materiais – poderia estar à beira de uma estrada. Talvez a estrada não fosse tão longa e nem tão deserta. Certamente, poderia ser poeirenta, cheia de sinuosas curvas e infatigável preguiça.
            É parte da lógica das estradas que elas aproximem cidades e pessoas. Ali, tenha sido penosamente traçada para este fim, mesmo que engenheiro algum se esforçasse por isso. Pelo seu traçado errático, admitia-se que fora a teimosia de pés humanos e a estranha necessidade de vizinhança os verdadeiros motivos de sua existência.
            Mas a estrada ainda não era caminho, era apenas estrada.
            Foram muitos os pés que se despojaram sobre ela. Fino tapete de poeira espargia os viajantes de pó avermelhado e alguma esperança. Nos dias chuvosos, a lama triplicava o esforço com que improváveis bailarinos e ousados equilibristas por ela passassem em flagrante desafio às leis da gravidade. Nem por isso deixavam de ser elegantes bailarinos dançando uma música ausente em um balé imaginário.
            Um riacho atravessava o trajeto: não de águas solenes, mas de pequenos alvoroços trepidantes, águas descaradas, aborrecendo as pedras que ali estavam e a modo de protesto por terem sido relegadas ao triste papel. Só mais adiante, nas escuras margens, é que rompia o rio, meditativo, como líquida estrada, filosofando uma sabedoria de curvas preguiçosas e côncava metafísica.
            A despeito de sua exuberante presença, a estrada não tinha sequer um nome. Era tão somente: a estrada. Provavelmente, nos mapas do governo, fosse apenas um traço distraído ligando nada a nada. Nenhum político dispôs-se a promovê-la à arquitetura das rodovias ou – pelo menos – homenageá-la com o desaforo do asfalto.
            E foi assim que, humilde, a estrada inventou amores, construiu riquezas, inaugurou saudades, festejou incontáveis procissões e testemunhou dolorosos funerais.
            Incontáveis situações favoreciam nela uma espécie de cumplicidade com os viajantes. Toda história contada entre dois vilarejos, que dela faziam uso, começa e termina na estrada.
            Pois de tanto contar e tanto recontar, um dia a estrada virou caminho.
            Mesmo depois que as máquinas chegaram e a dura labuta dos homens deu-lhe foro de via expressa, ela nunca deixou de ser caminho, até depois que não era mais estrada.
            O velho, que surpreende a paisagem e se posta na beira do asfalto, anuncia, com seu olhar de remorso, o vento que torna a estrada um caminho.
            É que o caminho é o mesmo, para quem vai ou vem; mas não é estrada, posto que esta apenas vai, nunca volta.
            São poucos os que lhe sabem caminho. Estes escapam à fúria do tempo e se tornam para sempre crianças.

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