Carlos Sepúlveda em 'Diário de Alexandria'

TODOS OS CAMINHOS


Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.
Cecília Meirelles.

                Como todos os homens da diáspora, fui obediente e esperançoso. Conheci a onipotência do Senhor e, como os demais, assombrei-me com os divinos decretos, a ira e o perdão.
                Estes panos rústicos que me cobrem o corpo imundo são tudo o que me restou depois de mais uma jornada penosa em busca da Terra Ignota.
                No crepúsculo do amanhecer, quando o longo rastro de fogo deixou de iluminar o caminho, encontrei-me separado de minha tribo. A tempestade de areia cegou-me por muitas horas, de modo que só pude distinguir vagas silhuetas à minha frente. Tomei a decisão que, naquele momento, pareceu-me conveniente: acompanhei os passos vacilantes de quem me antecedia na dura jornada, como um cego pode ser conduzido por outro cego. No futuro, o filho dirá que esta escolha é o prenúncio de um desastre.
 
                Quando os ventos cortantes e a areia fina não mais fustigavam meu rosto e em meus olhos diminuiu a dor lancinante é que me dei conta do fato: estava caminhando junto de outros irmãos, membros de outras tribos, dos doze que compunham a lenta rotina da diáspora.
                Procurei comunicar-me com eles e mal pude entender o que diziam. Falavam outro sotaque com alguma similitude ao meu, porém pleno de sonoridade áspera, com suas vogais de areia, por causa do ambiente estéril do deserto. As mulheres, resignadas e impuras por destino, eram-me estranhas em sua impureza inevitável. As letras do Livro ensinam que poderiam estar assoladas pelo sangue menstrual que seus corpos vertem a cada lua nova, anunciando o triste vazio de suas entranhas e a morte de uma promessa de vida.
                Meu esforço foi recompensado com alguma generosidade. Soube que estava com a tribo de Levi, os mais austeros e dedicados membros de nossa precária comunidade. Sabia que os rituais, as cerimônias, os delicados holocaustos e sacrifícios dependiam da ordenação dos levitas. Cada homem daquela tribo sabia de cor milhares de regras e ritos pelos quais o Senhor tutelava os eleitos, isto é, nós. O Senhor nos exigia obediência cega e nos punia com o rigor da morte. Saber ou não saber, a ignorância inescapável, era o preço a pagar pela glória de ser o povo escolhido, o povo sem outros.
                Quando despontava a luz sanguínea da manhã, parávamos para descansar. Havia o Senhor estabelecido que caminhássemos à noite, quando o calor estalante já não feria nossos olhos nem incendiava nossa pele. Cada um buscava a sombra imaginária de uma tenda, bebia a pouca água disponível e comíamos, sem prazer, o bolo de maná, dádiva do céu, que nos permitia viver mais um dia.
                A multidão, o absurdo corredor humano, repousava, preparando-se para a longa jornada pela noite. O silêncio entrecortado de surdas lamentações e cansaços era substituído, à luz do dia, pela conversas ruidosamente calorosas. Olhávamos para o horizonte em brasa aprendendo a interpretar os sinais de esperança na linha reta do horizonte que teimava em se afastar de nosso precário alcance. Cabia aos levitas, e somente a eles, traduzir o duro realismo do inatingível na crença inocente de uma promessa, a Terra Desconhecida.
                Conhecemos o que nenhum outro povo foi capaz de fazê-lo. Fundávamos o idealismo.

***

                Até a tarde eu seria puro. Poderia caminhar junto aos sacerdotes, mesmo sem ser um deles, e ajudar a carregar as tendas e os objetos sagrados com que se celebravam os ritos. Aprendíamos a exercer a virtude da fuga portando o essencial das coisas com quê sobreviver. Esta virtude nos acompanharia pelos séculos afora e nos permitiria resistir.
                Recebi uma leva de roupas de linho, cuidadosamente imaculadas. Deveria portá-las com zelo. Eram as vestes utilizadas nas cerimônias do Amanhecer quando, no interior da Grande Tenda, os dois irmãos que nos lideravam ouviam do Senhor os desígnios, as regras, as punições, enfim, as razões com que construíamos a rotina de nossa diáspora, esperança a dentro.
                Naquela mesma manhã, soubemos que um dos homens, não posso assegurar de qual tribo, desobedecera a proibição do shabat.
                Aparentemente, o homem, convencido pelos sussurros noturnos de sua delicada esposa, trabalhou no Dia do Senhor, sem atentar para os avisos. Denunciado por um dos irmãos, obedientes à Lei pétrea, foi pronunciado pela ira divina, morto antes que a noite nos envolvesse com sua escuridão consoladora. Nunca mais, neste mundo, sua esposa poderia desfrutar as carícias de uma cerimônia ardente.
                O castigo era exercido por todos os convocados. O culpado permanecia imóvel no centro de um círculo humano onde cada um dos componentes guardava a mesma distância do condenado. Era vedado tocá-lo ou mesmo dirigir-lhe a palavra. A primeira pedra, atirada no impuro, era privilégio do primogênito ou por quem o Senhor assinalasse. Imediatamente, seguia-se a punição purificadora e todas as pedras eram lançadas com disciplinada ferocidade e igual convicção. Sob os rudes golpes , até que o corpo dilacerado se confundisse com o orvalho do anoitecer, a última gota de sangue redimia a cada um de nós. Ficamos puros até que a tarde caísse. Prevalecia a Lei e a comunidade da diáspora sobreviverá mais forte ainda em busca do outros sangues para merecer a Terra Prometida.

   ***

                Por um breve instante, permiti que um pensamento impuro perturbasse minha paz de espírito. Pensei que o sonho de um homem não passa de uma elegante solidão até que se torne o sonho coletivo. Nosso Guia sonhou nossa liberdade desde o cativeiro dos Faraós e nos revelou que era a vontade do Senhor. Logo ele que não conseguia pronunciar uma frase completa sem tropeçar nas pedras dos vocábulos. Aprendemos os avisos e outras tantas mensagens a nos ditarem o roteiro e o caminho. Nossa sobrevivência veio do céu, em forma de alimento, e da água vertida da rocha, quando tínhamos sede. Pedaços de algodão resvalavam em nossas mãos e as mulheres engendraram banquetes impensáveis. As águas do grande mar se abriram para que o desfile de corpos cansados pudesse passar. Os algozes, não.
                Muitas coisas estranhas os leitores futuros hesitarão de crer quando lerem, distraidamente, o Livro, mas o ruído da dura jornada, os pés arrastados na areia impiedosa, será ouvido numa língua áspera. Será ouvido toda vez que a história de um povo for vilipendiada, humilhada e oprimida.
                Sei que acontecerá muitas outras vezes, de modo sempre diverso. Só a dor será a mesma.
                Temo esses pensamentos intrusos e não falo deles a ninguém. O Senhor poderia supor que este dom de antecipar futuros, terras e cidades espantosas seja um modo de negar sua Presença. No entanto, vivo o sofrimento de antever.

***

                Agora, a grande lua bóia no céu e a noite se curva de frio. O silêncio adormece em cada sono inocente enquanto despertamos para a caminhada assim que as chamas nas nuvens nos mostrarem a hora.
                Permaneço em silêncio, vivendo com irmãos desconhecidos, contemplando os milhares de corpos que se levantam, preguiçosamente, para reiniciar a viagem. Vejo a multidão brotar do chão, como uma cobra de infinitas cabeças, enquanto o caminho de fogo desenha, no céu, a rota segura.
                Como todos, também eu me preparo para a jornada. À noite me faz bem, porque ninguém lê meus olhos, ninguém suspeita de meus pensamentos impuros. A luta que travo com eles só o Senhor sabe e ainda não me puniu.
                Apesar do temor da Ira divina, é-me impossível evitar este pensar impensável. Sei que hoje somos servos do Senhor. Um dia, chegará seu Filho e seremos, ao invés, filhos do Senhor, até que outro dia, muito longe daqui, seremos, não servos, não filhos, mas Amigos.
                Um pensamento impuro me diz que um dia a Terra Prometida será o tempo do Espírito e seremos, afinal, livres para sempre.

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