Carlos Sepúlveda em...

A HISTÓRIA DAS PERAS



            No livro II das “Confissões”, intitulado “os pecados da adolescência”, Agostinho de Hipona narra, no capítulo 4, a história das peras.
           


Conta-nos que, próximo a sua casa, havia uma pereira, generosamente cumprindo o primaveril destino de estar carregada. Comenta que seus jovens amigos e ele apreciavam brincar de invadir quintais, até alta madrugada. Certa vez, os noctívagos, malvados, resolveram sacudir a árvore para assistir à queda das frutas. Tiraram grande quantidade de peras, não para um banquete, mas para deitá-las fora, aos poucos, embora comessem algumas.
            Encerra o episódio assinalando que todo o prazer do grupo consistia em cometer o roubo e gozar o prazer do ilícito. Agora, aterrorizado, declara que não encontrou outro motivo para explicar sua malícia senão a própria malícia. Falava do mal absoluto, banal e sem motivo.
            “Amei o meu pecado”, escreveu proclamando seu espanto.
            Este episódio tornou-se emblema das preocupações de Agostinho nas “Confissões”, a primeira autobiografia da literatura mundial, escrita entre 397 e 398 A.D. É também a exposição do tema central de toda a obra, as reflexões do Pai da Igreja sobre o problema do Mal.
            Por que o homem não escolhe simplesmente o mal? Por que a consciência do mal é tão perturbadora? Existiria o mal como uma substância?  Pode o mal ter sido uma criação de Deus?
            Até sua morte em 28 de agosto de 430, o fundador da Patrística viu-se acossado por estas conjurações: qual o sentido e natureza do mal?
            Seu coração aquietou-se, contudo, quando formulou o princípio otimista de que o mal é o esquecimento do bem. Nossa humana natureza predica o bem; a graça divina nos oferece o bem como “natura” e “ratio”, natureza e razão.
            Nos últimos noticiários, assistimos a tragédias colossais, no Haiti, no Chile; chuvas que irrompem ao sul do equador e as nevascas ao norte. Estes cenários nos fazem refletir sobre culpas e condenações. Seria a destruição do mundo obra do acaso?
            As explicações da ciência não servem de consolo, elas apenas atestam fatos contra os quais nada podemos fazer, exceto implorar à divindade.
            Impossível não temer as catástrofes nas cidades devastadas. Impossível não nos acometer a suspeita de que ali está o mal absoluto, resumido em dor.
            Nossa fragilidade cristã, tão estarrecida quanto a de Agostinho, ainda se surpreende com a infinita potencialidade do mal. Ainda nos surpreendemos com as últimas palavras do Santo Bispo de Hipona, ao pressentir o último sopro de vida.
            Já contemplando a face iluminada do Criador, murmurou em silenciosa resignação: UNDE HOC MALUM? De onde vem todo este mal?
            Há quase 16 séculos, com a humildade de uma pera esquecida no chão, fazemos a mesma pergunta.

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