Diário de Alexandria com Carlos Sepúlveda



DIA DAS MÃES  


           Enfim – era uma negra esquálida, miserável mendiga, vestida de trapos e restos. Os cabelos empalhados, rosto crispado, a máscara da loucura. Uma pobre velha, sentada no meio-fio, balbuciando palavras de pedra e mágoa. Maior o espanto quando se vê que agasalha ao colo um surpreendente boneco desnudo, a guisa de bebê, sobre quem derrama sua ternura de mãe improvável.
            ...acaricia o filho suposto com o fervor dos loucos, ergue os olhos injetados, ameaçando a tantos quantos ousam achegar-se de seu espaço vital. Um bicho, selvagem, para quem dois palmos de calçada vale uma manjedoura.
            ...a loba desgarrada da alcateia, que protege com ferocidade a cria de plástico.
            Ah! Sim! Havia ternura na pobre. Uma velha de aspecto repugnante que levava ao regaço, embalando, uma pantomima de angelicais virtudes; um filho suposto, um resto de boneco, provavelmente recolhido ao lixo noturno, sobra de um brinquedo útil a despertar sentimentos maternos em alguma criança feliz e protegida.
            A maternidade dessacralizada destruía a recatada figura da mãe. A mendiga estava a destruir, sem saber, a quase fada dos anúncios da TV, como são as mães em chamariz de vendas. Era antes uma demente, abominavelmente desgraçada, sentada no meio-dia de uma rua da cidade. Uma aberração desaforada vestida de horror e desumanidade.
            ...abraça, aconchega o boneco roto e em seu olhar suplicante, ferozmente desvairado, alguma ternura existe, mas só para os que têm olhos de transparecer, de sublimar.
            (Posto o enigma no meio da rua, proclama-se o desafio: como supor humano aquele quase bicho? Onde a coragem de suportar a presença insidiosa do não-ser pessoa? Como admitir o trânsito materno naquela contramãe?)
            Mas saber é esquecer.
            Veja aquela ternura sinistra da ensandecida mendiga com um boneco nos braços, amamentando-o sem alimento, cuidando dele sem a espessura do corpo, beijando-lhe as plásticas faces com tresloucado afeto ( ninguém pode determinar o limite entre o sublime e o ridículo, e ali havia os dois). Não será por isso que os passantes sorriam?
            Assemelhava-se a uma cena de cinema mudo com seus gestuais chaplinianos, que a mulher repetia em sublime cuidado e carícias: a maternidade desaforada, deslocada, absurda, surrealista, acontecia à luz da tarde azul de maio.
            No entanto, havia alguma coisa ali que não podia ser ignorada.
            Poucos se deram conta, porque se tratava de um teatro secreto, espécie de metafísica do nada. E já temos bastante metafísica na miséria cotidiana das ruas.
            No entanto, também ali brotava a grotesca possibilidade da áspera ternura. Também aquilo podia ser um milagre da maternidade.
            E se pudéssemos, por um segundo, aceitar a loucura dessa maternidade inverossímil? Talvez pudéssemos compreender a força desse amor sem medida, que não se pode encontrar no livro da felicidade humana; um gesto surpreendente de doação e beleza, mesmo entre um boneco mutilado e uma mendiga desvairada.
            Obrigado, meu Deus, por me fazer suficientemente tolo para me deixar comover por este amor gratuito e absurdamente desumano.
            É que o amor só se mostra ao amor.
           

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