Diário de Alexandria

HUMILDE ARQUITETURA


            A capelinha mais que enfeitava a paisagem. De tão acanhada e modesta, o viajante que por ela passasse dificilmente sentiria desejo de visitá-la, para não ferir a harmonia de sua ternura.
            Destacava-se pela alvura da caiação com um cuidado digno de nota. Provavelmente, os moradores do lugarejo – não mais do que umas vinte famílias de miseráveis roceiros – tomaram para si a tarefa de conservar a capelinha cujo nome não quero lembrar-me, uma vez que nenhum anúncio havia no frontispício, nem constava nos mapas da região.
            Uma esquálida estrada de terra batida levava até ela, até sua frágil porta pintada de azul-anil. Não havia a solenidade dos degraus, pois a porta se abria diretamente ao rés do chão.
            Era maio e as manhãs luminosas de outono, levadas de sol, realçavam o verde da mata. Podia-se ouvir a passarada em viva cantoria, enquanto a brisa inocente acariciava nosso rosto, anunciando a irresponsabilidade da alegria.
            A delicada harmonia do conjunto era completada pela igrejinha como se fosse um presépio, vivo e ocasional, fora de época. Nada naquele cenário parecia proposital, como acontece com monumentos para atrair turistas ocasionais. Aquele pequeno mundo de delicadezas assemelhava-se a uma pintura feita por mãos meticulosas sem qualquer outro propósito. Apenas estava ali, desde sempre, na porcelana do tempo, sem outro motivo senão estar ali.
            Era Domingo. Minha mulher e eu nos perdemos nos descaminhos da mata em que enveredamos. Costumávamos fazer pequenas incursões motorizadas pelas vizinhanças da cidade para a qual nos mudamos e acabamos por descobrir a capelinha. Era nosso passatempo favorito.
            O jipe aguentava bem as jornadas extravagantes, porque não nos intimidavam os lugares desconhecidos, queríamos descobrir a cor local, o pitoresco, as paisagens virgens às retinas urbanas. E foi assim que topamos com a igrejinha.
            Era Domingo, como disse. A porta da capelinha se abriu com resignação e uma senhora, de aspecto acolhedor e cabelos brancos, sorriu-nos, convidando-nos para entrar.
            Apeamos do jipe e nos dirigimos a ela que nos falou, com um sopro cúmplice na voz:
            -- Entrem, a missa já vai começar. Estávamos esperando por vocês.
            Ficamos um tanto surpresos, porque, além de acolhedora, a mulher pareceu-nos estranhamente íntima e somente nós dois, minha mulher e eu, estávamos ali. A acolhida, percebi-a sincera. O interior da igreja era composto de seis fileiras de bancos improvisados, com um corredor no meio, com não mais do que cinco humildes assentos por fileira, o que perfazia um total de trinta lugares, tudo com muito asseio e capricho.
            O altar era uma mesa reformada e repintada, em óbvio improviso, com os necessários paramentos para a missa. Todavia, tudo era comovente simplicidade.
            Sentamo-nos na última fileira.
            Havia também uma porta lateral, aberta, por onde algumas rolinhas entravam a ciscar, sem pudor, o chão frio. De vez em quando, alguns pardais invadiam o ambiente, chispando na diminuta nave com  algazarra de estridentes chilros.
            A acólita desapareceu por detrás do altar, enquanto nós permanecíamos na última fileira, aguardando os outros fiéis. Por enquanto, éramos apenas os dois na capelinha.
            E assim permanecemos o tempo suficiente para suspeitar algum acontecimento incomum. O silêncio na igrejinha era interrompido pela alegria esfuziante dos pássaros.  Os ruídos rasantes da brisa na vegetação faziam dançar um balé melancolicamente repetido. Com o azul lavado da manhã espalhando luz, sentimos um estranho torpor e todo este cenário parecia ter o dom de suspender o tempo e a realidade.
            Não sei se cochilamos, porque perdemos a consciência por uns instantes. Não me recordo de ter visto o celebrante entrar. Não me lembro de ter visto padre nenhum, com seus paramentos, exercendo o ritual das missas. A propósito, só me lembro da quentura das mãos entrelaçadas às da minha mulher, e do inusitado sentimento de completude. Lembro-me literalmente da onda de felicidade que se me assomaram os sentidos como se todos os problemas do mundo estivessem resolvidos e a paz habitasse para sempre em nossos corações.
            Num determinado momento, contemplei o rosto de minha mulher, vestido de luz, e nunca a tinha visto mais bela em minha vida. Senti que ela me sorria compassivamente, um sorriso de esplêndida plenitude, como se um recado me fosse transmitido, ao ouvido, silenciosamente. Uma aura de resignada alegria e infinita misericórdia habitou-me na alma e no rosto dela.
            Não sei por quanto tempo ficamos sob o efeito daquela magia. Sei apenas que nossas vidas estavam completas, sem os vazios, as brechas, os temores e incertezas de sempre, sem os abismos, os espinhos. Tudo estava íntegro e inteiro no pequeno mundo para o qual nos mudamos.
            Quando despertamos, espantados e um tanto desconfiados, procurei a senhora que nos acolhera; encontrei-a do lado de fora, junto à porta, na saída da capelinha.
            Perguntei-lhe com indisfarçada preocupação e alguma aspereza:
            -- A missa, quando vai começar?
            E ela, com uma expressão de bem-aventurada impaciência, respondeu-me
            -- Já acabou. A missa já acabou. Vocês não notaram?

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