Palocci atendeu banco parceiro da União

  Política Aflora
Dida Sampaio/AE
Dida Sampaio/AE

Santander contratou a Projeto Consultoria, do ministro da Casa Civil, quando ele era deputado, para fazer 'palestras a grupos de executivos'

O ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, prestou serviços para o Banco Santander no período em que era deputado federal. O contrato foi feito por meio da sua empresa Projeto Consultoria Econômica e Financeira para "análises econômicas e financeiras" a executivos do banco. A informação foi confirmada nesta quarta-feira, 25, ao Estado pelo próprio Santander. É a primeira instituição bancária a revelar publicamente a contratação de Palocci, que foi ministro da Fazenda no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Leandro Cólon
Em nota enviada à reportagem, a assessoria do Santander informa que contratou Palocci para dar palestras sobre economia aos seus executivos. "O Santander Brasil informa que contrata eventualmente palestrantes para apresentar análises econômicas e financeiras, nacionais e internacionais, aos seus funcionários. Dentro deste contexto, o sr. Antonio Palocci, por meio da empresa Projeto, fez palestras para grupos de executivos da organização."
O banco argumenta ainda que não pode revelar mais detalhes - como datas e valores dos contratos - por questões de cláusula de confidencialidade.
O Grupo Santander é o quarto maior banco do mundo em lucros e o oitavo em capitalização de mercado. Em junho de 2010, o banco no Brasil registrou ativos totais de R$ 347 bilhões. A instituição é o terceiro maior banco privado do País.

Parceria. O Santander é parceiro do governo federal. Em agosto de 2010, o banco comprou seis jatos da Embraer via o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), vinculado ao governo, para alugar à empresa aérea Azul numa operação inédita de financiamento. O negócio, avaliado em US$ 250 milhões, é conhecido como "spanish leasing", no qual o Santander comprou as aeronaves com 80% de financiamento do BNDES. O banco ainda é um dos parceiros da Petrobrás num programa para facilitar a oferta de crédito aos fornecedores.
Fontes do mercado confirmaram ao Estado que a Projeto Consultoria Econômica e Financeira prestou serviços ao banco entre 2008 e 2010. O ano de 2008 ficou marcado por uma grave crise econômica mundial, quando o governo Lula adotou medidas para contê-la no Brasil.
Em janeiro de 2009, Lula recebeu no Palácio do Planalto o presidente mundial do Grupo Santander, Emilio Botín. Naquele encontro, os dois discutiram os efeitos da crise e o banco anunciou investimentos de R$ 2,5 bilhões no País. Hoje, o Santander tem cerca de 23 milhões de clientes no Brasil.

Lula relata a Palocci insatisfação de aliados

Para ele, ou ministro atende parlamentares ou até base pode apoiar CPI no Senado

 Vera Rosa e Christiane Samarco, de O Estado de S. Paulo
BRASÍLIA - Preocupado com as insatisfações e ameaças da base governista no Congresso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu nesta quarta-feira, 25, a senha da operação destinada a abafar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o patrimônio do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. Em conversa reservada com Palocci, na terça-feira, 24, Lula foi taxativo: avisou que ou o ministro atendia os parlamentares ou até aliados poderiam endossar uma CPI no Senado, encurralando o Planalto.
O ex-presidente relatou o diálogo que teve com Palocci durante café da manhã com dez líderes de partidos aliados do governo, nesta quarta, na casa do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). "Você tome cuidado porque sua situação no Congresso não é boa. Todo mundo está insatisfeito com sua conduta", disse Lula a Palocci, de acordo com relatos de senadores.
Na tentativa de evitar a CPI, Palocci passou a telefonar para os senadores e pedir apoio. Disse estar sendo vítima de uma "campanha de difamação" e se prontificou a marcar conversas privadas com os parlamentares, para esclarecer as denúncias que pesam contra ele.
Lula jantou com a presidente Dilma Rousseff, Palocci, Gilberto Carvalho (ministro da Secretaria-Geral da Presidência), Miriam Belchior (Planejamento) e com seu assessor Luiz Dulci, na terça-feira, no Palácio da Alvorada. Cobrou de Dilma e Palocci mudanças urgentes na articulação política do governo, disse que era preciso atender os aliados na montagem do segundo escalão e acenou com um cenário nada animador. Para Lula, se o governo não agir rápido para conter os dissidentes da base aliada e estancar a crise, a CPI no Senado pode sair.
Queixas. Na manhã de terça-feira, um dia depois de almoçar com senadores do PT, o ex-presidente ouviu mais queixas dos líderes da base aliada - do PMDB ao PTB, passando pelo PR e PP- e assumiu as rédeas da coordenação política do governo. Em tom de apelo, Lula pediu um "voto de confiança" em Palocci e, mais uma vez, tentou contornar a crise política, sob o argumento de que o alvo da oposição é o governo Dilma.
"Palocci é o homem que prestou muitos serviços ao nosso governo e não podemos desampará-lo", disse o ex-presidente. Enquanto o café era servido, com pastel de queijo e bolo de aipim, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR) "monitorava" o andamento das comissões no Senado, pelo celular, na tentativa de barrar qualquer pedido de convocação de Palocci.

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