Bombeiros cariocas: questão social ou caso de polícia?

Editorial

É comum em nossa história a tendência de abordar a questão social como caso de polícia, sob pressão das forças conservadoras ou de direita. É isto que se insinua neste momento em relação à luta dos bombeiros cariocas, que galvanizou ampla simpatia e solidariedade popular no Rio, no Brasil e mesmo no exterior, mas também despertou o ódio reacionário das elites. É este sentimento que emana do editorial publicado na segunda-feira (14) pelo jornal Folha de S. Paulo, sugestivamente intitulado Incêndio no Quartel, que clama pela punição da categoria e a expulsão dos líderes dos grevistas da corporação.

Ninguém ousa colocar em dúvida o mérito das reivindicações. O salário líquido de um bombeiro carioca não passa de R$ 950. É impossível sobreviver com certa dignidade com tão pouco, o que força os trabalhadores a apelar aos “bicos” e ajuda de familiares e amigos, entre outros meios, para complementar a renda. Não é sem razão que o Dieese calcula em R$ 2.293,31 o salário mínimo necessário, em maio deste ano, para fazer frente às despesas de um trabalhador e família descritas na Constituição de 1988.

Não se trata de um problema apenas dos bombeiros, é bem verdade. O valor da força de trabalho no Brasil é dos mais baixos da América Latina e do mundo. Por aqui, o preço da força de trabalho situa-se, em muitos casos, abaixo inclusive do valor necessário para a sua mera reprodução.

A taxa de exploração é notoriamente alta e a mão de obra barata constitui um vergonhoso fator de atração de controvertidos investimentos externos pela economia nacional. Para o capital e o capitalismo tal realidade é percebida como um paraíso terrestre e garantia de elevada competitividade, mas naturalmente o ponto de vista da classe trabalhadora não é nem poderia ser o mesmo. A baixa remuneração é prova de atraso e opressão num país que ainda não se livrou da herança maldita do trabalho escravo.

No caso dos bombeiros, cuja perigosa função requer treinamentos pesados e rígida disciplina, a noção de injustiça é amplificada pela comparação com a renda auferida por membros da mesma categoria em outras capitais. Os cariocas, que reclamam um piso de R$ 2 mil, têm a mais baixa remuneração do país. No Distrito Federal, o salário inicial é de R$ 4,6 mil, em São Paulo, R$ 2,17 mil e em Minas Gerais, R$ 2,01 mil.

Há uma fartura de razões para a indignação e a revolta que explodiu e ganhou forma na greve unificada da categoria e na polêmica ocupação do quartel central da corporação. Não é de estranhar o extraordinário apoio e a generosa solidariedade que o movimento mereceu da população, evidenciados na manifestação que reuniu milhares de pessoas na orla de Copacabana dia 12.

A luta dos bombeiros calou fundo na alma da sofrida classe trabalhadora brasileira – que também anseia e luta por melhores salários, uma vida mais digna e pelo desenvolvimento com valorização do trabalho – e certamente influenciou a decisão da Justiça determinando a libertação dos grevistas injustamente presos. O governador Sérgio Cabral pisou na bola ao chamar os manifestantes de vândalos irresponsáveis e abordar a questão, que é essencialmente social, como caso de polícia.

Em vez de capitular à pressão conservadora e aplicar a receita reacionária sugerida pela mídia venal, sedenta de repressão e retrocesso, o governo devia se reconciliar com a opinião pública carioca e dar mais atenção à voz rouca das ruas, que clama por justiça e reivindica anistia e salários mais decentes para os bombeiros.

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