Carlos Sepúlveda e seu 'Diário de Alexandria'



METÁFORAS

            No capítulo 21 do famoso livro de Aristóteles – A POÉTICA – o filósofo trata da metáfora. Após defini-la como resultado de comparações entre um par de imagens assemelhadas, o Estagirita exemplifica como uma frase de Empédocles: “a noite é a velhice do dia; do mesmo modo, a velhice é a vida que anoitece”
            A metáfora, segundo ele, consistiria no transportar para uma coisa o nome da outra, por uma espécie de analogia.
            Não pôde, contudo, o grande pensador Grego associar metáfora a uma insuficiência: a de que a linguagem é, na maior parte das vezes, uma impossibilidade e uma tautologia.
            Existem circunstâncias cravadas na realidade, situações existenciais, tão radicalmente profundas, que as palavras serão sempre insuficientes para descrevê-las, ou entendê-las. Quando não, nosso fatigante exercício de comunicação é um infindável rosário de monótonas repetições. Por isso, o silêncio pode ser uma forma também profunda de linguagem e sabedoria.
            Graças às metáforas, podemos escapar da nossa miséria elocutiva.
            Quando, por exemplo, o poeta descreve a aurora com um verso ( raia sanguínea e fresca a madrugada) ou quando pinta o pôr do sol ( fecha-se a pálpebra do dia), há como que um sopro revificante na linguagem que nos enche de prazer. Inesquecível experiência descrita por Keats, poeta inglês: “a thing of beauty is a joy for ever” ( uma coisa bela é um prazer perene).
            Mas há também nas metáforas o valor de um signo. É que a infinita diversidade do real é inapreensível em sua totalidade, nos próprios termos em que é descrita. A vida é muito mais intensa e múltipla do que sonha nosso vão esforço em compreendê-la. Há um momento em que a razão se torna débil e todas as explicações se tornam inúteis.
            Então, um signo se torna metáfora capaz de “ler” para nós a força da realidade que irrompe e se expõe a nossa toda compreensão.
            Que metáfora é mais poderosa do que a imagem do Cristo na cruz? Que simbolismo é mais contundente do que este momento descrito há dois mil anos?
            A potência da metáfora é sua infinita possibilidade de síntese. Com uma única metáfora, podemos dizer o mais fundo do profundo. A verdade, se ela existe como o sol que iluminava a entrada da caverna de Platão, deve ser alguma metáfora.

Carlos Sepúlveda

Comentários