Carlos Sepúlveda e seu 'Diário de Alexandria'

O PINTOR


            No princípio eram as cores. Um quiçá verde-limão (os limões verdes serão amargos?), um quem sabe azul-anil, como os céus de algumas pátrias, ou quase todas que recusam o vermelho em suas bandeiras, por pudor. As cores se misturam partindo de apenas três e dessas míseras três oferecem o espetáculo do infinito arco-íris em movimento.
            O pincel pontilha a mancha na paleta, os gestos enfurecidos do pintor devolvem à tela branca o feitiço das cores. Ele não busca a cor pura, mas a proximidade mínima de duas ou três, infinitamente próximas, de tal modo que os olhos não conseguem separá-las. Ao contrário, é a imperfeição ótica que as congrega, numa terceira coloração, vista de longe. E quando não são rápidos traços, são pontos espetados da crina eriçada do pincel na tela vazia. É que o pintor espera alcançar a magia do sublime através de nosso olho limitado e precário, de nosso defeito.
            E aos poucos o branco da tela cede à imagem indefinível, que não é provável adivinhar a paisagem; é preciso deixar o caos de a pintura inquietar a visão, depois o cérebro, depois a pele, depois o olfato, depois o sentimento de plenitude que se esvai do vazio absurdo da tela.
            O pintor não pinta uma coisa, posto que as coisas se limitam, têm peso e massa, são terra-a-terra, não podem fugir ao escrutínio de nosso surpreendido olhar submisso. Antes pinta o pintor uma coisa indecifrável, que nos inquieta até que podemos atribuir-lhe um sentido, não importa qual. O pintor não pinta para um olho absoluto, imperial, mas para um olho miseravelmente precário, impotente, que se deixa vagar pelos limites esmaecidos de uma fantasmagoria, como nos quadros de uma exposição de Ravel e de Mussorgsky. Vemos o que nossa liberdade sugere ou pressente.
            Assim nasce uma cumplicidade. Se o quadro se inventa, se o põem de ponta a cabeça , ainda será uma pintura e pouco importa gostar ou não gostar, pois não é de gostar ou não gostar que se trata, mas de ver ou não ver.
            Em sua expressão obsessiva, o pintor não pinta um jarro, uma paisagem, ou marinha, ou mesmo a Cruz, transtemporal, testemunha daquela maravilhosa Infâmia.
            O pintor pinta a pintura.

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