"Voltamos à luta, só uma batalha foi vencida", diz bombeiro

Em busca de anistia, bombeiros vão continuar acampados em frente à Alerj

Mesmo depois da liberação dos bombeiros na manhã deste sábado (11), o acampamento nas escadarias da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), no centro da cidade, vai continuar, segundo os manifestantes. 


Felipe de Oliveira

Celina Vargas, mãe do soldado Ricardo, comemora a libertação dos companheiros do filho, mas diz que a mobilização não acabou.
- Não vamos sair daqui enquanto não houver a anistia legal. Vamos ficar acampados aqui em frente à Alerj. Aqui se tornou uma casa. Aqui o povo é realmente defendido.
O sargento Luís Ricardo, que foi libertado durante a manhã, também vai passar a noite nas escadarias da assembleia.
- Vamos continuar com toda a nossa base aqui. Amanhã será o grande dia. Voltamos à luta, só uma batalha foi vencida. Agora vamos nos preparar para amanhã [domingo]. Mas como moro longe, vou ficar por aqui.

Volta para Campos
Um grupo com 21 bombeiros do norte fluminense voltou para Campos dos Goytacazes logo depois da liberação. A chegada deles na praça São Salvador, no centro da cidade, está sendo esperada por parentes e amigos.
Às 15h, quando eles já estiverem na cidade, vai acontecer uma carreata pelas ruas do município. No domingo, às 4h da madrugada, eles voltam a se encontrar na praça para retornarem ao Rio de Janeiro. Eles vão participar da manifestação em Copacabana às 9h.

600 mil assinaturas
Os Bombeiros do Rio de Janeiro farão uma campanha para arrecadar 600 mil assinaturas no Estado, informou na tarde deste sábado (11) o deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP). Com a lista completa, os parlamentares farão um projeto de lei pedindo a anistia dos agentes que ficaram presos uma semana e foram denunciados pelo Ministério Público do Rio.

Entenda o caso
Por volta das 20h da última sexta-feira (3), cerca de 2.000 bombeiros - muitos acompanhados de mulheres e crianças - ocuparam o Quartel Central da corporação, no centro do Rio de Janeiro. O protesto, que havia começado no início da tarde em frente à Alerj (Assembleia Legislativa), durou toda a madrugada.
A principal reivindicação da categoria é aumento salarial de R$ 950 para R$ 2.000 e vale-transporte. A causa já motivou dezenas de paralisações e manifestações desde o início de abril. Seis líderes dos movimentos chegaram a ser presos administrativamente em maio, mas foram liberados.


Diante do clima de tensão no Quartel Central, repetidos apelos feitos pelo comandante-geral da Polícia Militar, coronel Mário Sérgio Duarte, para que os manifestantes retornassem às suas casas foram ignorados e bombeiros chegaram a impedir que colegas trabalhassem diante dos chamados de emergência. A PM, então, com auxílio do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), invadiu o complexo às 6h de sábado (4). Houve disparos de arma de fogo, acionamento de bombas de efeito moral e confrontos rapidamente controlados. Algumas mulheres e crianças ficaram levemente feridas e foram atendidas em postos no local.

Os bombeiros foram levados presos para o Batalhão de Choque, que fica nas proximidades. De lá, 439 foram transferidos de ônibus para a Corregedoria da PM, em São Gonçalo, região metropolitana do Estado, onde passaram a madrugada de domingo (5). Durante a manhã, eles foram novamente transferidos, desta vez para o quartel de Charitas, em Niterói, também na região metropolitana.
Visivelmente irritado com o "total descontrole", o governador Sérgio Cabral anunciou no sábado, após reunião de cerca de cinco horas com a cúpula do governo, a exoneração do então comandante-geral do Corpo de Bombeiros, coronel Pedro Machado. O cargo passou a ser ocupado pelo coronel Sérgio Simões, que era subsecretário de Defesa Civil da capital fluminense.
Cabral disse que não negocia com "vândalos" e "irresponsáveis", alegou que os protestos têm motivação política e se defendeu dizendo que o governo tem planos de recuperação salarial para todos os militares desde 2007.
Pressionado por dezenas de protestos e diante da grande repercussão do caso, na quinta-feira (9), o governador anunciou aumento de 5,58 % nos salários de bombeiros, policiais militares, policiais civis e agentes penitenciários. Para isso será antecipado de dezembro para julho os reajustes que já eram previstos. Ele ainda anunciou a criação da Secretaria de Estado de Defesa Civil e nomeou o comandante Simões como titular da pasta.
Na sexta-feira (10), um pedido de liberdade feito pelos deputados federais Alessandro Molon (PT-RJ), Protógenes Queiroz (PC do B-SP) e Doutor Aluizio (PV-RJ) foi aceito pelo desembargador Claudio Brandão de Oliveira, do Tribunal de Justiça do Rio. Os 439 bombeiros responderão em liberdade após serem autuados em quatro artigos do Código Penal Militar: motim, dano em viatura, dano às instalações e por impedir e dificultar a saída para socorro e salvamento. A pena para estes crimes varia de dois a dez anos de prisão.

tabela-ajustada

A lista de assinaturas passará por diversos municípios de todo Estado fluminense. Os bombeiros esperam que a ajuda da população mais uma vez impulsione medidas benéficas à manifestação da classe que luta por melhorias de trabalho e aumento salarial.
Por volta das 9h deste sábado (11), cerca de 400 bombeiros deixaram a prisão marchando e cantando o hino dos bombeiros. Com cartazes pedindo a anistia aos presos, muitos choraram enquanto cantavam o hino dos bombeiros e o hino nacional. Uma queima de fogos na homenageou os militares.

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