Carlos Sepúlveda em 'Diário de Alexandria'


NOSSO DIREITO DE SER

            
Somos estimulados, quase o tempo todo, no sentido do ter. Se fazemos de nossa vida um compromisso acumulativo, se reificamos os dias e as manhãs, participamos alegremente do darwinismo social. Com isso, ganhamos respeito e consideração. Já não representamos perigo. Mas se, pelo contrário, mergulhamos na ansiedade do ser, se nos entregamos ao inconformismo em busca da sensibilidade, então somos “perigosos”, somos malditos.
            Nada irrita mais nosso desavisado vizinho do que o desespero, o desinteresse pela acumulação de coisas. É comum a irritação de algumas pessoas quando sugerimos, por exemplo, que um carro novo nada significa, e que dele não fazemos a menor questão.
            A maneira mais comum de exílio é ser um despossuído. E não se trata de não ter, mas de estarmos sempre preparados para despossuir. Só é meu, só me pertence verdadeiramente, aquilo que me disponho a perder, porque senão,  serão as coisas que me possuem.
            E não é esta a essência da liberdade?
            Pois o direito de ser se confunde com a condenação de sermos livres. Porém, a liberdade, no sentido do não-ter, acaba sempre sendo negociada no estreito universo da servidão.
            Resta sempre a interrogação de Baruch Spinosa ou de Étienne de La Boétie, o amigo de Montaigne, acerca de nossa disponibilidade para a servidão – a servidão consentida --, como disse La Boétie.
            Há sempre um mistério: a facilidade com que abrimos mão de nossa liberdade, de nossa autonomia de sujeitos racionais, em troca da conformada servidão. Pior ainda quando a rebeldia é “colonizada” pelos modos de vida da sociedade tecnológica de massas.
            Há sim uma estratégia midiática a favor da servidão, contra a liberdade, contra a autonomia.
            O resultado é um estado de crônica infelicidade, tristeza e medo.
            O direito de ser começa no exercício da alegria, muitas vezes confundida com loucura.
            Em um dos mais belos livros do Renascimento – O elogio da loucura – de Erasmo de Roterdã, está escrito que “não havendo alegria, a vida humana nem mesmo merece o nome de vida”.
            Mas a alegria, a gaia ciência nos termos de Nietzsche, invade nosso espírito quando ele se dispõe a SER. É como escancarar portas e janelas para deixar a luz do sol entrar. Significa explodir de sol todas as manhãs de nossa existência.
            Talvez por essa razão alguns homens, tocados pelo direito de ser, acabam perseguidos e odiados, gratuitamente. Eles se atreveram a desprezar o vulgar universo do ter.
            A paixão de ser paga o preço da incompreensão, do desprezo daqueles que foram escravizados no mundo prático do ter. Lá, tudo é cumulativo, simplista e cruel. Seus heróis são fáusticos, avançam sobre o outro reificado e triunfam quando ignoram qualquer sentimento de piedade, compaixão, solidariedade.
            Mas a paixão de ser provoca humanidades como a de Jesus de Nazaré, como as dos gênios da poesia, das artes. Quantos Beethovens são necessários para o mundo se tornar suportável?
            Finalmente, quando permitiremos que nossos jovens exercitem seu direito de ser?

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