Hoje na História

19 de julho de 1987 - Clementina se foi

"Clementina, cadê você? Cadê você? Cadê você? Cadê você?" O coro foi puxado em seu velório no Teatro João Caetano, onde a cantora empolgara grandes platéias do Show das Seis e Meia.

Clementina tinha prazer em cantar. Na adolescência, saía sempre fantasiada de peixeira nas Folias de Reis. Desfilou em carro aberto dirigido por Noel Rosa num carnaval. Cantou nas sessões de candomblé em Inhaúma, onde morava Tia Ciata, uma das baianas pioneiras em disseminar o samba no Rio. Freqüentava os jongos e caxambus da Tia Dorotéia em Osvaldo Cruz. Devota da Senhora da Glória do Outeiro, participava das festas das Igrejas da Penha e de São Jorge, cantando músicas de romaria. Foi ali que o compositor Hermínio Bello de Carvalho ouviu-a, por acaso, cantar. Trabalhou por muito tempo como empregada doméstica até iniciar sua carreira artística em 1964.

Sua estréia foi no Teatro Jovem, em Botafogo, num movimento chamado Menestrel, que unia eruditos e populares. No ano seguinte, integrou o musical Rosa de Ouro. Clementina, tão longeva, às vezes tinha sérios problemas de saúde. Em 1983, já com 82 anos de idade, desenvolvia uma atividade artística tão intensa que foi internada para se recuperar de estafa. Em suas últimas apresentações, já cantava sentada, mas tão ativa quanto podia. Suas músicas, ligadas à história do nosso país, representam o povo negro, sobretudo os jongos, e os lundus, que vêm do fundo de nossas origens.
Reprodução


Clementina era uma lenda viva. Em 1982, ela foi homenageada como tema do samba-enredo da escola de samba de Lins Imperial, “Clementina - Uma Rainha Negra”.

O canto que retrata o Brasil
Clementina nasceu em 7 de fevereiro de 1901, em Valença, Estado do Rio. Aos 10 anos, mudou-se para o bairro de Oswaldo Cruz. Neta de africanos, descendia da Nação Bantu, um grupo etnolingüistico localizado principalmente na África Sub-Saariana. Seu pai foi mestre de capoeira e violeiro. Sua mãe lavava roupa cantando modas, jongos e outros cantos de seu repertório que continham ecos da África. Foi nesta época que Clementina aprendeu os cantos de escravos, que mais de meio século depois registrou em disco. Ficou conhecida como a Rainha Guinga ou Quelé.

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