Maiores deficiências do setor de academias

Qualificação e formalização

Locais de exercício aumentaram mais de 20 vezes, mas profissionais não acompanham

Marcel Gugoni

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Apenas uma em cada 10 empresas está enquadrada corretamente no serviço que presta
 
Mais de 4 milhões de pessoas se exercitam quase todos os dias no Brasil. De 2000 a 2010, o número de academias cresceu mais de 20 vezes, mas a mão-de-obra e a formalização do setor continuam a desejar, como explica Gilberto Bertevello, presidente do Seeaatesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Esportes Aquáticos, Aéreos e Terrestres do Estado de São Paulo).


Números do Confef (Conselho Federal de Educação Física) apontam que, há 11 anos, havia 797 registros de empresas abertas com permissão para funcionar como tal. No ano passado, eram mais de 16.950. E esses números ainda estão muito abaixo da realidade.

- Esses números são só de CNPJs registrados. Se considerarmos os autônomos e outras iniciativas de atendimento à população em condicionamento físico, que não chamamos de academia porque não pagam imposto sindical, dá mais de 30 mil hoje.

A conta equivale a dizer que só uma minoria, algo como 1 em cada 10 empresas do tipo, está enquadrada corretamente no serviço que presta ao público.

- Estive em uma cidade do interior de São Paulo recentemente e fiz uma reunião com os empresários do setor. Na sala, tinha umas 17 pessoas e, dessas, havia umas 13 iniciativas de atendimento à população em condicionamento físico. Só 3 eram CNPJ de academia de fato. Encontrei gente com prédio próprio, piscina grande, um parque de musculação invejável, mas atuando como autônomo. É um autônomo empregando outros.
O Confef concede o registro mediante o pagamento de uma taxa anual que vai de R$ 380, para Pessoa Física, a R$ 939,09 para Pessoa Jurídica. O primeiro caso serve para quem vai atuar como personal trainer ou professor, enquanto o segundo é voltado para as empresas. Em ambos os casos há o registro no Cref (Conselho Regional de Educação Física) de cada Estado.

O que ocorre com frequência é o profissional inaugurar um salão de ginástica sem ter a formalização do negócio, o que se chama de firma aberta. Isso significa que aquele trabalhador poderia atuar como personal trainer em uma empresa, por exemplo, mas não tocar a própria academia.

- O conselho de educação física não tem a informação devidamente prestada pelas academias, clubes, condomínios ou spas. Estimamos que o número de academias seja muito maior do que quem paga o imposto sindical, por exemplo. Mas não queremos fechar nenhuma delas. O caminho é ajudá-las a consertar. Por que esse é um tipo de iniciativa que gera emprego. Hoje, o profissional de educação física é pago ainda pior.

O professor de educação física e especialista em fisiologia do exercício Ricardo Burgatti, que atua na área desde 2000, diz que o profissional da área ganha mal porque falta reconhecimento. Ao mesmo tempo, ele avalia que muitas faculdades têm formado educadores pouco qualificados para exercer a profissão.

- Eu peguei a época antes da formalização da profissão. Tinha a educação física, mas não tinha conselho, sindicato, nada. Desde 1998 está tudo formalizado, com conselhos coordenando, currículos montados nas faculdades. Mas o professor não tem a valorização necessária. Os salários são baixos. Há estagiários de outras áreas ganhando mais do que professores formados há quatro anos. Sem contar que as faculdades estão formando gente a rodo.

Em média, um professor que dê aula em uma escola particular ganha R$900 por mês, por 20 horas semanais. No caso das academias, o profissional ganha por hora trabalhada, e o pagamento pode ir de R$12 a R$25 a hora. O Confef diz que há mais de 170 mil profissionais registrados em todo o país.

E o que fazer se a academia for irregular ou causar problemas para a saúde do frequentador? A orientação é denunciar ao conselho regional. Em São Paulo, a média é de cinco denúncias por dia sobre falhas e negligências.

- Cabe ao cliente cobrar qualidade do profissional. Quem for treinar tem que saber a procedência dos profissionais e da formalização das academias.

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