Pai da namorada do filho de Cabral cobra explicação da Aeronáutica



Mariana Noleto morreu no dia 17 de junho, num acidente cujas circunstâncias não foram explicadas até hoje Foto: Reprodução da internet / Acervo de família




Guilherme Amado

A dor de perder um filho é pessoal e intransferível. Espécie de senha secreta e dilacerante, ela só funciona dentro dos corações de um pai e de uma mãe. Desde o último dia 17 de junho, o servidor público Hélio de Aquino Noleto e a secretária Márcia Cristina Noleto estão à mercê da insuportável combinação: saudade, tristeza, lembranças. Mariana Noleto, de 20 anos, filha do casal e namorada de Marco Antônio Cabral, filho do governador Sérgio Cabral, foi uma das sete vítimas do acidente de helicóptero no Sul da Bahia. Só o sorriso da menina, descrita pelos amigos como uma aluna aplicada no estudo e cheia de amor pela vida, permanecerá com Hélio e Márcia. Em entrevista exclusiva ao EXTRA, o pai de Mariana lembrou a beleza exterior e interior da filha e, como "pai, cidadão e contribuinte brasileiro", como ele mesmo se descreveu, compartilhou sua dor e sua reivindicação: saber exatamente como sua filha morreu.

— Tenho o direito de saber como minha filha morreu. Nenhuma autoridade procurou a mim ou à minha mulher para dizer o que houve ou para, pelo menos, mostrar que tomariam uma atitude — desabafa Hélio.
Hélio critica a fiscalização deficiente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e a irresponsabilidade das autoridades aeronáuticas que permitiram aquele voo. Numa noite chuvosa e sem visibilidade, o helicóptero Esquilo foi comandado por um piloto cuja autorização para voar estava vencida, o empresário Marcelo Mattoso de Almeida — que também morreu no acidente. Hélio acredita que a falta de uma fiscalização eficaz tenha contribuído para a fatalidade.

— Minha filha sempre foi um exemplo de menina. Tinha caráter e prazer de viver. Como pai, eu tinha muito orgulho de, além de reconhecer seu caráter e sua dignidade, também ter podido investir na educação dela. Ela tinha um futuro lindo pela frente — recorda-se, na inabalável corujice de um pai amoroso.


Enterro de Mariana Noleto, no Cemitério São João Batista, em Botafogo: pais convivem até hoje entre o luto e a fé na vida
Enterro de Mariana Noleto, no Cemitério São João Batista, em Botafogo: pais convivem até hoje entre o luto e a fé na vida Foto: Arquivo O Globo / André Teixeira

“Ele morreu”

Hélio não culpa o piloto. Diz acreditar que foi um acidente de fato e sabe que Marcelo foi, em última análise, vítima da mesma forma que Mariana:
— Acredito que ele tenha superestimado sua habilidade de piloto e foi relapso com a condução do voo como um todo. Mas não o culpo. Ele morreu.

Hélio explica que o irmão de Mariana, João Pedro Noleto, de 14 anos, e a faixa etária do casal — ele e Márcia nem chegaram aos 50 anos — são imperiosos: os dois sabem que ainda têm uma vida pela frente.
— Preciso viver meu luto. Perdi a coisa mais importante da minha vida. Não estou inerte, não estou conformado. Mas preciso sobreviver — esperança-se, numa estranha mistura de luto e fé na vida.

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