Carlos Sepúlveda em 'Diário de Alexandria'

O TRABALHO E OS DIAS


            É preciso explodir de sol todas as manhãs.
            É preciso escancarar as janelas para a luz do sol entrar, iluminando os dias, regando de futuro a flor perdida da esperança.
            É preciso merecer a vida e matar um leão por dia para poder acalentar o sonho de ser verdadeiro.
            É preciso contemplar os desvãos da alma para não sermos surpreendidos pelo medo de ser autêntico.
            É preciso tecer o sonho nosso de cada dia para manter acesa a fogueira da lucidez, para não enterrar no cemitério de nossos medos a necessária coragem de fazer o que tem de ser feito.
            É preciso acreditar que a luta, mesmo solitária, justifica uma existência, preenche os vazios e nos faz caminhar na plenitude e leveza do destino.
            É preciso amar, um amor sem fim, um amor áspero, um amor inteiro, um amor agora, aqui, sem as tralhas da culpa.
            É preciso, no entanto, estar pronto para fazer de seu o que é, de ofício, contingente, precário, passageiro.
            É preciso saber que a vida é um talvez, um apesar de, um oxímoro de adversidades, um quiçá-quem-sabe, coisa precária.
            É preciso mastigar o fel do remorso quando ofendemos, quando magoamos a quem amamos, e sermos capazes de perdão.
            É preciso compreender que o excesso de luz é também cegueira, portanto, é preciso demitir a sentinela da razão e deixar o coração enlouquecer para que possamos ouvir os passos da emoção.
            É preciso confiar na manhã que há em todas as manhãs e não temer a escuridão, porque sempre haverá outras madrugadas, lavadas de luz, nos varandais de nossas ilusões.
            É preciso saber que todas as ilusões valem a pena mesmo quando perdidas.
            E quando as cortinas de se fecham e o bilheteiro cobra o ingresso, precisamos acreditar que o espetáculo não acaba e a vida se repete, infinitamente. Enquanto nós, humildes como um perdido grão de milho, vamos conhecer, afinal, o Autor da peça de que somos precários personagens.

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