Carlos Sepúlveda em 'Diário de Alexandria'


PROXIMIDADE E VIZINHANÇA: A NOVA ÁGORA


            Para constar, em um exercício de pretensa filosofia, há de se reconhecer que proximidade não é vizinhança, mas seu pressuposto. Estar próximo é uma atilada estratégia de encolher espaços, um esforço premeditado de estar junto, ao lado. É, portanto, um exercício objetivo de mera aproximação que se dá, às vezes, a despeito da vontade. Vizinhança é outra coisa.
            Vizinhança é uma proximidade deliberada, movida por algum tipo de afinidade a qual, muitas vezes, sentimos como se fosse uma complementaridade. Na vizinhança, é o vizinho quem baliza nossas fronteiras afetivas. O vizinho tem o condão de ampliar os novos espaços vitais, não como fosse a Lebensraum de um Império, mas a radiante aventura de descobrir-se, de abrir as fronteiras de uma nova subjetividade, delicada e renovadora.
            Estar próximo não é uma decisão, é uma conveniência. A proximidade denota apenas o volume, o desenho da massa, onde cada um é o solitário estar entre as gentes. Na vizinhança, é um solidário estar com o outro. É deste modo que a vizinhança se torna potencialmente emancipatória, porque nos tornamos mais fortes quando nos sentimos íntegros na nova identidade.
            A proximidade não é capaz de gerar rebeliões, no máximo, gera ruídos, aglomerados difusos, mas a vizinhança estabelece vínculos e compromissos que jamais suspeitávamos existir. A proximidade gera resignação; a vizinhança gera renovação, mudança, transformação.
            Os fenômenos de comunicação conhecidos como  redes sociais, como orkut, Facebook potencializam o poder de vizinhança. As convocações para os encontros pós-virtuais abrem um novo capítulo na história dos movimentos sociais e, por conseqüência, nas democracias de massa.
            As mobilizações via internet não entronizam um líder, um mártir e muito menos um porta-voz. Nos movimentos que geram, cada participante é seu próprio centro, seu próprio líder. As palavras de ordem que antes formavam o eixo de propósitos e definiam as ações dentro dos movimentos ( como o é proibido proibir de maio de 68) não são mais indispensáveis. Agora, as páginas dos sítios de encontros apenas registram a hora e o local. A indignação a cada um pertence.
            As mais violentas e crueis ditaduras estão derretendo, não sob a força das armas de um comandante afoito, mas sob a pressão da “agora digital”, repetindo o ideal grego da democracia. Até ampliando, porque não se trata de uma  agora seletiva, excluindo os escravos e restringindo-se aos aristotein, mas uma agora para todos o que tiverem acesso a um computador ou a um telefone celular com internet, isto é, quase todos nós.
            A nova agora ainda vai dar muito o que falar. Rios de bytes escorrerão sobre as telas dos laptops, netbooks, tablets contando a nova historia do presente em que cada indivíduo é ator protagonista de seu momento.
            Sim, o mundo muda, e para melhor!

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