Escolas de samba vão se apresentar para o Papa Bento XVI em 2013


Topiqueiro Marco Antônio Teixeira da Luz fez uma música em 1980 para o Papa João Paulo II e se prepara para atualizar a canção para Bento XVI Foto: Agência O Globo / Fabiano Rocha

“Sua Santidade, João Paulo II, veio abençoar um trabalho oriundo / De uma classe baixa, mas que sempre lutou / Os favelados lhe desejam muita paz e muito amor”. Cantada para o Papa polonês, durante a visita do Sumo Pontífice em 2 de julho de 1980, a letra marcou a aproximação da Igreja Católica com o mundo do samba, no Morro do Vigidal. Autor da homenagem, o topiqueiro Marco Antônio Teixeira da Luz já se prepara para atualizar a canção para celebrar esse casamento entre o sagrado e o profano — que está para ser consolidado em 2013, na 28ª Jornada Mundial da Juventude, no Rio, quando o Papa Bento XVI se conciliará de vez com o ritmo-símbolo da cidade. A programação do evento contará com uma apresentação especial de várias escolas.
No domingo, algumas horas após Bento XVI anunciar, em Madri, a escolha do Rio como a sede da próxima edição da Jornada, o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa), Jorge Castanheira, estava numa igreja em Botafogo. No fim da missa, Jorge recebeu da boca do padre Marcos William, vigário episcopal de Comunicação Social da Arquidiocese, a confirmação da vontade acalentada pelo arcebispo dom Orani João Tempesta.


O Papa Bento XVI presidiu neste sábado uma missa para cerca de cinco mil seminaristas de vários países, na Catedral de Santa Maria a Real de Almudena, no terceiro dia de sua viagem à Madri, na Espanha
O Papa Bento XVI presidiu neste sábado uma missa para cerca de cinco mil seminaristas de vários países, na Catedral de Santa Maria a Real de Almudena, no terceiro dia de sua viagem à Madri, na Espanha Foto: Reuters

— Se acontecer realmente, vamos respeitar os dogmas da Igreja. Não é preciso colocar passistas de biquíni. O mais certo seria colocarmos um grupo representativo, como as Velhas Guardas, e crianças das escolas mirins — diz Castanheira, fugindo das polêmicas, como a de 1989, quando a Igreja e a Beija-Flor brigaram por causa da imagem de Cristo como se mendigo no abre-alas.
— Na época, a mídia veio toda atrás da gente. Fiz o Fantástico duas vezes — festeja Marco Antônio, ansioso por encontrar novamente um Papa.
Ilha sai na frente
Ainda haverá muita discussão até que as agremiações sejam escolhidas. Mas o assédio à Arquidiocese já começou. Presidida por Ney Filardi, um católico fervoroso, a União da Ilha do Governador saiu na frente. Na última sexta-feira, antes da escolha da cidade, Ney mandou um e-mail a dom Orani pedindo em nome da sua comunidade.
— O Papa pode até ser alemão, mas ninguém resiste ao som da bateria da União da Ilha. Ele vai ficar mexendo os pezinhos e as mãozinhas — brincou Ney, cujo assessor, pediu, ontem, às 18h, para a reportagem ligar para o presidente cinco minutos depois porque ele estava rezando.
Grandes nomes
Porta-bandeira da Beija-Flor, Selminha Sorriso já sentiu na pele os ranços entre a religião e o carnaval.
— Já dancei até de fraldão nos Emirados Árabes. No meio da apresentação, interromperam o show e colocaram os panos em cima da gente, mas deu tudo certo — relembra.
Baluarte da Portela, Monarco comemora a conciliação entre Igreja e samba:
— Nós sambistas já fomos recebidos como marginais. Mas, hoje, se o samba é patrimônio cultural e frequenta até o Theatro Municipal, você acha que o Papa não vai gostar?

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