Jornalista pode torcer para a Seleção Brasileira?

Renan Justi
A imparcialidade compõe a atividade de qualquer profissional de imprensa. No entanto, é na cobertura dos clubes brasileiros de futebol que o posicionamento neutro funciona como uma espécie de “mantra” da profissão. Mas, e quando o jornalista esportivo está numa cobertura de Copa do Mundo. Vale torcer pela Seleção, usar termos como “a vitória é nossa” e ser, acima de tudo, torcedor brasileiro? “Se o jornalista esportivo deve colocar a paixão por um clube de lado ao analisar uma partida, evidentemente não tem que torcer pela Seleção Brasileira”, compara Mauro Cezar Pereira, comentarista dos canais ESPN, sem qualificar como antiéticos aqueles que torcem pelo Brasil.
Durante a disputa da Copa do Mundo 2010, uma declaração da apresentadora Mylena Ceribelli abriu margem para discussão sobre até que ponto essa torcida deve ser expressa diante dos microfones. Em coletiva de imprensa, a jornalista da TV Record disse que “antes de sermos jornalistas, somos torcedores da Seleção Brasileira”, o que, para Sérgio Xavier Filho (foto), diretor de redação da revista Placar, não é bem uma unanimidade. “Ao contrário do que muita gente pensa, tem muito jornalista que torce contra”.
Ou então prefere o clube de futebol em melhores condições que o time canarinho. Na semana passada, durante o programa Redação SporTV, o jornalista Renato Maurício Prado, torcedor declarado do Flamengo, criticou a convocação de Ronaldinho Gaúcho, atleta rubro-negro, para o próximo amistoso do Brasil. “O que ele (Mano Menezes, técnico da Seleção) está fazendo é uma loucura”, disse. “Acho que o Renato se perdeu, passou do limite. Viu pela ótica de torcedor, não conseguiu se colocar no lugar do Mano Menezes, que é pago para convocar os melhores e vencer”, analisou Xavier.


Transparência com o público

Ao revelar sua torcida pelo Brasil em jogos, ou até mesmo o clube do coração, a imagem do profissional junto ao público, como pensa o narrador do Esporte Interativo André Henning, não é prejudicada. Muito pelo contrário. “Acredito que seja até mais honesto (revelar a torcida), até mesmo no caso dos clubes. O ouvinte e o telespectador têm o direito de saber”, responde. Com opinião oposta, o jornalista Vladir Lemos (foto), do programa Cartão Verde, da TV Cultura, acredita que o ato de ficar na torcida pela Seleção não compete ao ofício de jornalista.

“A função do jornalista esportivo é basicamente apurar e relatar o fato. Jornalista não tem que torcer pra ninguém, nem para Seleção nem para o clube que fica ao lado da sua casa”, analisa Vladir.
No polêmico episódio envolvendo o técnico Dunga e o jornalista Alex Escobar, da Globo, na Copa do Mundo sediada na África do Sul, a emissora, em link de Tadeu Schmidt, se posicionou como torcedora da Seleção, mas sem deixar o compromisso com a informação de lado. “O que precisa ficar claro em mais este episódio, é que torcemos muito para que a Seleção conquiste mais um Mundial. É preocupação da Rede Globo levar a melhor informação a você, telespectador”, disse Tadeu, após reportagem sobre o ex-técnico do Brasil.

Narração à brasileira

Se a postura do jornalista, quando se trata de Seleção Brasileira não é um consenso, as narrações de jogos da exigem do locutor o sentimento de torcida, uma transmissão feita para envolver a emoção do público. “O narrador torce. É o modelo vigente desde que sou criança”, diz Luiz Carlos Júnior, narrador do SporTV. “Esse 'torcer' é apenas para acompanhar o clima de quem está vendo você em casa. Uma coisa é aquela torcida discreta, aquela força para a seleção. A outra é passar a achar que o juiz está comprado ou que o Messi não joga nada”, conclui.
A responsabilidade de entreter é mais uma tarefa delegada aos narradores, que historicamente foram acostumando-se a transmitir os lances e gols da Seleção de seu país com mais euforia. “O narrador tem o dever de reter a audiência, de fazer com que o telespectador jogue, vibre e se emocione com ele. Somos todos do mesmo time”, conta o narrador André Henning (foto).

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