Não podemos nos curvar para o crime organizado, diz juíza criminal do Rio


Alessandra Bilac condenou mais de cem milicianos e já mandou até prender advogado

Há apenas quatro anos na área criminal, a juíza Alessandra de Araújo Bilac, 40, calcula já ter julgado e condenado mais de cem criminosos do Rio de Janeiro, a maioria integrantes de milícias (grupos que controlam algumas favelas na capital fluminense). Na lista de bandidos mandados para a cadeia por ela há gente “famosa” – e perigosa –, como os líderes das quadrilhas rivais Liga da Justiça e Comando Chico Bala.



Marina Novaes
Alessandra conversou por telefone com o R7 antes do assassinato da juíza Patrícia Lourival Acioli, da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo (RJ), ocorrido na última sexta-feira (12), a respeito da atuação das mulheres no Poder Judiciário. Entretanto, procurada pela reportagem novamente após a tragédia, a juíza defendeu uma nova discussão sobre o esquema de segurança dos magistrados, expostos ao deixar os tribunais.
- Está todo mundo muito abalado, impotente diante do que aconteceu. Esse atentado sofrido por ela foi um atentado contra toda a magistratura. Mas, independente do que aconteceu, os magistrados vão continuar unidos na luta contra o crime organizado. Não podemos nos curvar a esse tipo de atitude. Mas acho que vai ter de ser discutido, com o tribunal [Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro], uma maneira de reforçar a nossa segurança.
Antes de ingressar na área criminal, Alessandra trabalhou por muitos anos em uma vara da família. Embora tenha trocado uma rotina “normal” por uma atividade de maior risco, a juíza se esforça para não se deixar influenciar pelo medo, e defende a atuação das mulheres na área.
- Se a gente for ter medo e deixar de enfrentar [os criminosos], é melhor escolher outra profissão pra seguir, porque não tem como. [...] Mas os resultados valem a pena. Em Campo Grande [bairro da capital fluminense] não vou dizer que a milícia acabou, ainda existe, mas de uma forma bem menos ostensiva. E acho que essa sensação de segurança da população é a maior motivação que a gente pode ter.

De acordo com levantamento feito pelo R7, as mulheres ocupam cerca de um terço das vagas de magistrados em 15 tribunais de Justiça estaduais. O Rio de Janeiro – onde Alessandra exerce a função de juíza na 42ª vara criminal da capital – é um dos Estados com a maior proporção de magistradas em atividade: são 432 juízes e 401 juízas.
Mas embora o número de mulheres esteja quase equiparado ao total de homens na magistratura no Estado, ela conta que ainda enfrenta preconceito por ser mulher em algumas ocasiões. Recentemente, a juíza chegou a ter de mandar prender um advogado por desrespeito durante uma audiência.
- A gente vê que alguns advogados ainda acham que o nosso lugar é atrás de um tanque.
Casada, mãe de três filhas, Alessandra também se desdobra pra cumprir as “jornadas múltiplas” do dia a dia, como muitas mulheres que trabalham fora. Apesar da correria que a profissão impõe, ela aposta que o número de mulheres nos tribunais deve aumentar nos próximos anos.
- Acho que daqui a uns dez anos já seremos maioria, pelo menos no Rio. [...] Acho que é uma questão de cultura e de tempo.

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