Carlos Sepúlveda e o 'Diário de Alexandria'


RETALHOS DO TEMPO

É a magia do tempo que nos permite ver as coisas além das coisas.
É quando uma fotografia, marcada pelos vincos do tempo,
desbotada no amarelo dos anos,
sugere o retorno das horas que insistiram em passar
e deixa entrever, em meio aos refugos de uma gaveta,
um jogo de botões, um pedaço de poema, uma confissão imprudente,
uma pétala desbotada de esquecida. flor
Tudo absolutamente inútil.

É quando o vivido presentifica
o menino e a menina que uma vez existiram,
e surpreendemos em nós
aquele jovem que nunca partiu
                        que nunca se foi
                        que nunca deixou de ser
o memorial de si mesmo,
dos bons tempos, das horas perdidas,
entre devaneios e incertezas,
desta coisa indecifrável chamada vida...
De como tudo isto foi bom e verdadeiro.

Talvez por isso as gavetas permaneçam desarrumadas.

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