'Diário de Alexandria' com Carlos Sepúlveda

FLAUBERT

            A literatura pode ser um tipo de obsessão Aliás, creio que nós, os escritores, não exercemos nosso métier senão com alguma obsessão. Não é com inspiração apenas, nem com outra qualquer predicação transcendente ou metafísica.
            O caso Flaubert exemplifica uma espécie de obsessão, quase um transtorno. Ele buscava minuciosamente a mot juste, por isso era capaz de escrever e de reescrever a mesma página centenas de vezes até que encontrasse a forma ideal, a palavra exata.
            Seu trabalho exasperava. Abandonava-se à busca da perfeição estilística numa tarefa perfeitamente inútil, no solitário exercício de escrita e de reescrita, devotando, para isso, uma inútil vida inteira, várias horas por dia.
            Não por acaso, o livro de Sartre sobre Flaubert ( l’idiot de la famille) é mesmo uma “psicanálise”da inutilidade. Nem é preciso dizer que esta obsessão irritava, principalmente, seu pai que pretendia para ele a disciplinada carreira de banqueiro .
            Evidentemente, no universo utilitário da pequena burguesia francesa, em meados do século XIX, o autor de Madame Bovary não era considerado um padrão de comportamento, embora o resultado final tenha sido a imortalidade. E se, por ventura, a medida do sucesso seja o comum pecúnio, os livros de Flaubert venderam alguns milhões de francos.
            A excentricidade rendeu-lhe uma fortuna em qualquer sentido que se queira entender.
            No entanto, o exemplo de paixão pela escrita e o trabalho magnífico de descrição da pequena burguesia rural na França, além da invenção do ´bovarismo”, constituem um patrimônio incomensurável.
            A literatura de Flaubert abriu caminho para a autonomia do estilo e da renovação do romance. Sem ela, a grande riqueza da ficção em língua francesa não teria conhecido a grandeza de Proust, isto para dizer o mínimo.
            Fora o fato de que o destino infeliz de Emma Bovary foi traçado, não pelo cego destino, a dura marca dos deuses, mas pela hipocrisia e pequenez da sociedade empobrecida, no interior da França.
            O painel sociológico, sustentado por um domínio invulgar da língua, tornou Flaubert um gênio da ficção universal.
            Segundo Alain Finkelkraut, Flaubert acreditava na existência de um liame entre beleza e verdade, como os clássicos. Depois dele, toda grande literatura realista repousa sobre este estranho postulado.
            Conta-se que, no momento de sua morte, ele teria se lamentado de seu ofício. “Eu morro como um cão”—exasperou-se –.“ Esta puta da Bovary vai permanecer para sempre”.

NOTA – O colunista vai ausentar-se pelas próximas duas semanas quando estará em vilegiatura, em Paris e Praga. Os leitores eventuais poderão desfrutar da ausência, mas eu os ameaço com o retorno.

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