No Rio, PMs se dizem despreparados e reclamam de falta de treinamento após formação


Sociólogo da ONG Viva Rio diz que falta de orientação transforma PM em exterminador

Evelyn Moraes / R7
ônibus assalto
Ônibus baleado em assalto no centro do Rio passou por perícia

Muita ação e pouca aula. A cobrança a que PMs são submetidos nas ruas do Rio de Janeiro está em descompasso com o treinamento recebido no curso de formação de soldados. A opinião é de agentes da capital ouvidos pelo R7. Eles relataram à reportagem que não passaram por todas as aulas de tiros, que não têm capacitação suficiente para enfrentar situações perigosas, que só têm reciclagem uma vez ao ano e que são sobrecarregados pela escala de trabalho.

Procuradas por duas semanas, a Polícia Militar e a Secretaria de Segurança Pública não responderam às críticas dos soldados tampouco quiseram se manifestar sobre a formação dos policiais.
Especialistas em segurança pública afirmam que a falta de treinamento adequado dos PMs compromete o trabalho dos agentes nas ruas. O número insuficiente de aulas de tiros, segundo os PMs, e a pressa em formar policiais têm resultado em erros durante situações de risco, como no episódio do sequestro de um ônibus de passageiros no centro da capital fluminense.

Na noite do dia 9 de agosto, três homens invadiram um ônibus na avenida Presidente Vargas. Após serem abordados pela polícia, vários tiros foram disparados contra o coletivo, na tentativa de pará-lo. Cinco pessoas ficaram feridas - uma delas permanecia até a sexta-feira (26) em estado grave. Os criminosos, que fizeram os passageiros reféns, se entregaram após negociação com o Bope.
Segundo perícia preliminar do ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli), 14 disparos que atingiram a lataria do veículo partiram de armas de policiais. Para Antônio Rangel Bandeira, sociólogo e coordenador de Controle de Armas da ONG Viva Rio, a falta de orientação transforma o PM em exterminador.
- Eles não estão preparados para usar armamento de guerra. Eles têm uma mentalidade que não é a de um policial, que mais parece a de um exterminador, de vingança, de não se preocupar em atingir inocentes, pela absoluta falta de orientação e treinamento.
Ainda de acordo com Bandeira, há falhas nas técnicas de abordagem.
- O policial não pode agir sozinho, como aconteceu no assalto ao ônibus. Um PM sozinho, armado, qualquer um pode tomar a arma dele. Alguns valores estão sendo deixados de lado. A prioridade deveria ser salvar e proteger vidas. Se necessário, eles precisam deixar o bandido escapar. A prisão deles não vale a vida de inocentes.


Na ocasião do sequestro ao ônibus, um PM tentou entrar no coletivo e teve a arma roubada por um dos assaltantes, que fugiu.
O coronel Paulo César Amêndola, um dos fundadores do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e consultor de segurança pública, considera o treinamento realizado no Centro de Recrutamento e Seleção de Praças insuficiente.
- O treinamento de um PM dos batalhões convencionais é básico, não é um treinamento específico. O treinamento básico não é o suficiente. As capacitações suficientes são as das tropas especiais, como os cursos do Bope.

Treinamento

Um policial militar lotado no Batalhão de São Cristóvão (4º BPM) diz que os soldados não são capacitados para atuar em assalto com refém.
- A polícia não tem treinamento específico para um assalto como o da avenida Presidente Vargas. Nós não estamos preparados para um caso como este. É como se algum estudante de Direito estivesse saindo da faculdade e tivesse que enfrentar um tribunal.
Um outro policial do mesmo batalhão criticou o processo de reciclagem feito hoje na PM.

- A reciclagem é feita apenas quando voltamos das férias e é só um dia de treinamento de técnicas de abordagem, defesa pessoal, tiros e distúrbio civil [treinamento com armas não-letais], das 8h às 17h.
A PM confirmou que a reciclagem é feita quando os policiais retornam de férias ou de licença do trabalho.
Uma outra queixa comum é a escala de trabalho.


- Nós trabalhamos em uma escala de 12 horas por 36 horas. É muito puxado. Passamos muitas horas trabalhando, fazemos hora extra muitas vezes, porque não tem pessoal suficiente.

Aulas de tiro e psicólogos

Segundo a Polícia Militar, durante todo o curso de formação, o aluno dá 330 disparos com armas de diversos calibres. Mas, um PM formado no ano passado e que atua em comunidade pacificada diz que não deu todos os tiros durante a sua formação.

- Eu não tive nem a metade disso. Eu acho que deveria ter mais aulas de tiro. 
Formado há dez anos, um dos agentes do 4º BPM afirma que não deu todos os tiros programados durante seu curso.
- Naquela época era mais tempo de curso. Eu fiz nove meses de treinamento e dei no máximo 150 tiros.
Atualmente, segundo a PM, o curso de formação de soldados e praças dura cerca de seis meses. O coronel Amêndola considera o curso muito rápido.  
- A pressa de colocar o PM na rua é mais uma demanda política, do governo do Estado, que precisa colocar a polícia para trabalhar. O tempo de seis meses não é o ideal. Deveria ser como o curso realizado em São Paulo, de pelo menos dois anos.
Vinícius Domingues Cavalcanti, diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança, também considera fraca a formação de PMs no Rio.

- O treinamento é francamente insuficiente. Aqui no Brasil, a gente privilegia a aquisição de equipamentos ao invés de se preocupar com a qualificação do homem.
O ex-comandante da PM, coronel Ubiratan Ângelo, defende o acompanhamento psicológico dos policiais.
- Os PMs envolvidos no sequestro ao ônibus, por exemplo, não cumpriram o protocolo existente. Pode ser porque não estavam bem preparados ou o estresse não deixou que eles raciocinassem sobre o preparo que tinham. Isto precisa ser revisto. Não significa que ele estava mal preparado, significa que ele não aproveitou bem o preparo que teve.

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