O SONHO DE LIN YUN TANG

Diário de Alexandria
Por Carlos Sepúlveda

            Na ampla sala, no vastíssimo palácio imperial, Lin Yun Tang, o decano dos alquimistas, exultava com alegria. Exultar talvez seja uma palavra excessiva, mas os leitores hão de compreender, e talvez perdoar, o exagero de um narrador latino, admirador confesso dos barrocos. Na verdade, o rosto oriental registrava apenas leves traços de alguma coisa próxima da felicidade.
            É que, naquela manhã ocasional, o velho alquimista poderia anunciar ao Soberano Imperador, Luz do Mundo, sua definitiva invenção: o pó da vida eterna.
            Não se podem descartar, é claro, os vestígios do acaso, a despeito de tantos anos de busca apaixonada, dos inumeráveis fracassos na pesquisa paciente do prodígio.
            De muitos modos, o alquimista conseguiu decifrar as tentativas levadas a efeito nas cortes onde o sol desfalecia. Inúmeras vezes, repetiu à exaustão as experiências de um certo Nostradamus que parecia ser diferente dos bárbaros ocidentais. Quase se poderia dizer que era como um sábio do Império do Meio, tão profundamente penetrara nos mistérios do universo.
             Em posse de algumas fórmulas secretas, obtidas após metódica tortura de um jesuíta incauto, pôde ele chegar a algumas amostras do pó da imortalidade ou da juventude.
            Mas a amargura do insucesso ainda o inquietava, mais e muito, quando imaginava terminar seus contados dias sem apresentar ao Imperador, Luz do Mundo, sua obra máxima.
            Certa madrugada, após mais uma metódica tentativa, o grande sábio adormeceu, sem se dar conta de que deixara uma intrusa fresta na janela meio aberta, por onde atravessou insidioso raio de luz , logo que se abriu o leque da manhã.
            O discreto feixe de luz percorreu a pequena distância entre a fímbria da janela e o pequeno pote onde repousava o pó esbranquiçado, restos de outra fracassada tentativa.
            A pequena chama solar acendeu o fogo do pote; o pó se queimou e os restos, enegrecidos, permaneceram no mesmo lugar. Quando Lin Yun Tang despertou do agitado sono, espantou-se como os restos de um pó vítreo, de cor negra, cujas propriedades desconhecia.
            Tomado de incontrolável mas discreta euforia, o alquimista tomou uma porção do pó negro, dissolveu-o em água recolhida do céu, armazenada fora do contato humano, e transformou-o em líquido espesso, escuro. Em seguida, ministrou-o, em gotas, a um rato que lhe servia de cobaia.
            Na manhã de que trata este relato, Lin Yun Tang comprovou sua feliz hipótese: o rato rejuvenescera, estava mais vigoroso, a vida parecia deixar nele a seiva da imortalidade.
            Quando o sábio se encontrou com o Imperador, deu-lhe notícias do que houvera descoberto e que poderia ser o pó da Eterna Juventude. No entanto, necessitava de mais tempo para certificar-se. O Imperador, Luz do Mundo, Alteza Sereníssima, anunciou que se deveria experimentar em humanos, mais precisamente, em prisioneiros, imediatamente.
            Durante duas semanas, o alquimista administrou, cuidadosamente, uma infusão do pó negro, diluído em água pura, recolhida do céu, sem o toque de mãos humanas. Desgraçadamente, porém, ao contrário dos ratos, os homens morriam, após dores dilacerantes que os faziam contorcerem-se até o desesperado fim. Os corpos enegreciam, crispados em medonhas formas, enquanto os olhos explodiam nas órbitas, contemplando a morte que vinha acompanhada de odor nauseante.
            O venerando sábio, antevendo a ira do Imperador, resolveu dar fim ao invento, ateando fogo em todos os potes. Porém, ao espargir o conteúdo sobre as chamas de um forno, o produto explodiu, poderosamente, cegando-o para sempre.
            Recolhido em seu desespero, Lin Yun Tang morreu sobre a madrugada.
            A ironia vai por conta do fato de que o pó negro não chancelou a imortalidade, como desejara, mas a própria máquina de matar. Lin Yun Tang havia descoberto a pólvora.

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