Vídeo (imagens fortes) mostrando tortura provoca indignação no Egito


O Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito (SCAF), que controla o país desde a queda do ditador Hosni Mubarak, deu nesta quarta-feira um sinal de que ouve a voz das ruas. Em entrevista ao site do jornal oficial Al-Ahram, o general Adel El-Morsi, chefe do Judiciário militar do Egito, afirmou que será aberta uma investigação para apurar a tortura da qual foram vítimas dois homens presos na cidade de Daqahliya, no norte do país. O episódio provocou indignação e diversos comentários negativos contra os militares no Facebook, um dos fóruns preferidos dos egípcios para discutir o futuro do país.
Desde o início da semana, um vídeo (imagens fortes) circula na internet mostrando o sofrimento dos dois homens, ainda não identificados. As imagens começam com ambos deitados no chão de uma sala onde estão mais de dez homens uniformizados, em roupas do Exército e da polícia do Egito. Os dois são erguidos e então começam a ser agredidos com tapas, cotoveladas e choques elétricos, no rosto e no corpo. Ambos ficam sem reação e parecem estar ouvindo, ou dando declarações, a um superior dos policiais e soldados agressores, que nada faz para encerrar a tortura.
O general El-Morsi explicou que reportar esse tipo de incidente na mídia é considerado uma reclamação oficial sobre o caso, e que os militares não podem aceitar tais violações de direitos humanos, não importando quem seja o responsável.
As palavras de El-Morsi devem ser recebidas com ceticismo pelos egípcios. Desde a queda de Mubarak, a junta militar vem comandando o país com punho de ferro e fazendo crescer a frustração entre os egípcios. As eleições parlamentares, que começam no fim de novembro, foram organizadas de forma que irritou diversos partidos políticos. A transferência de poder para um presidente civil, se confirmada, só deve ocorrer em 2013. A Lei de Emergência, legislação draconiana que permitia a Mubarak reprimir seus adversários, continuará em vigor até junho de 2012. Segundo a Human Rights Watch, 12 mil civis já foram julgados por tribunais militares desde a queda de Mubarak, todos julgamentos considerados ilegais pela ONG.
O caso mais notório de arbitrariedade é o do blogueiro Maikel Nabil, que há mais de 30 dias faz greve de fome. Em declarações ao jornal Al-Masry Al-Youm, a família de Nabil afirmou que ele não pode receber visitas e que os militares se recusam, inclusive, a dar remédios ao ativista. O “crime” de Nabil foi denunciar a repressão do Exército aos manifestantes, mesmo depois da queda da Mubarak.
Aos poucos, os egípcios começam a perceber que há uma chance grande de os militares simplesmente darem continuidade ao regime Mubarak. Nesta semana, o chefe do SCAF, o marechal Mohammed Hussein Tantawi, fez um passeio com roupas civis pelo Cairo e um comentarista da TV estatal disse que ele seria um bom candidato a presidente. A revelação do vídeo com a tortura escancarou que a continuidade do regime representaria não só a continuidade da ditadura, mas também das atrocidades cometidas sob Mubarak. É por isso que, nesta sexta-feira (30), os egípcios planejam mais uma grande manifestação na praça Tahrir, no centro do Cairo. Desta vez, o alvo é o regime militar.
Confira abaixo o vídeo que está indignando os egípcios (imagens fortes):
José Antonio Lima

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