'Diário de Alexandria', com Carlos Sepúlveda

Praga

3ª parte
A experiência democrática e republicana é muito recente em Praga. São situações vividas ainda por duas gerações que convivem em termos antitéticos. A nova ordem, sob a liderança de escritor Vaclav Havel, arevolução de veludo, tem duas décadas apenas. O totalitarismo soviético deixou marcas profundas e dolorosas, principalmente, como é de se esperar, entre os mais velhos.
        A lógica da competição dos mercados assanhou os mais ousados e a sociedade repetiu o darwinismo clássico. Os mais lentos, os delicados, foram ficando à margem do consumo, embora não tenham perdido a cidadania, como acontece entre nós. Como são maioria, isto acabou se refletindo no crescimento do partido comunista nos índices eleitorais.
        Mas nós podemos avaliar, andando por aquelas ruas, o que significa parir um país.
        Educação e saúde não são mais universalmente gratuitas, mas financiadas pelo capital privado, com alguma proteção do Estado. A sociedade está ensaiando algo parecido com uma socialdemocracia como desdobramento do totalitarismo e da tutela do Estado sobre a sociedade. Trata-se de uma experiência interessante, porque os governos socialdemocratas, no ocidente onde existem, foram implementados num contexto de sociedade de mercado como resposta a uma democracia mais igualitária. Na República Tcheca não, a socialdemocracia se esforça por superar o Estado absoluto.
        Pelo movimento nas ruas, pelo número de grandes lojas de marcas, pela quantidade de consumidores e, sobretudo, pela frota de automóveis particulares, -- todas as marcas mundialmente conhecidas em modelos novos – a mudança parece satisfatória, pelo menos para os turistas.
        A miséria, como a conhecemos na América Latina, lá não parece existir. Existem programas soócias assistencialistas para os mais pobres sem que haja um programa de governo específico para isto.

        De todo modo, a transição do Estado protetor para uma sociedade livre agrada aos mais moços, a primeira geração do pós-comunismo.
        Mas onde a diferença se aprofunda é na memória das vítimas do comunismo, como encenam os monumentos a elas.
        Uma dor de 70 anos de horror não desaparece em uma geração; aliás, nunca desaparece, no máximo aprofunda-se em seu silêncio carregado de culpas.
        Praga é, sem dúvida, um monumento à humanização. Vale a pena exercer nossa solidariedade a um povo que não aparenta precisar dela, no entanto, quando percebemos sua solidão coletiva, sabemos quanto um povo necessita de encorajamento de outros povos.
        Uma visita à cidade nos revela um sentimento de dura materialidade e uma resignação quase fatalista frente a um destino que teima em permanecer kafkiano.
        Visite Praga, é uma experiência inesquecível.
        Ahoj.

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