Dois 'foragidos de peso' de quadrilha que fraudava o Detran são procurados

Coordenador de exames e chefe do posto de vistoria no interior estão na mira da polícia
A polícia continua à caça dos integrantes da quadrilha especializada em fraudar o processo de emissão de carteiras de habilitação no Detran-RJ que conseguiram escapar do cerco montado na operação desencadeada nesta sexta-feira, quando 31 pessoas foram presas na Operação Contramão II. Entre os foragidos estão dois suspeitos ‘de peso’.


Um deles é o coordenador do Setor de Exames de Processos para concessão de habilitações do Detran-RJ, Paulo Gustavo Menezes Gama Lima. O segundo é o chefe do Posto de Vistoria de Rio Bonito, Francisco Furtado Pinheiro. As suspeitas são de que os R$ 116 mil em dinheiro encontrados na casa dele, em Niterói, tenham sido obtidos de forma irregular.
Com dois anos de atuação no estado, o bando ajudou cerca de 4.800 pessoas a obter permissão para dirigir — em alguns casos, até moldes de silicone com as digitais dos candidatos foram usadas para driblar a fiscalização biométrica. As fraudes renderiam até R$ 10 milhões por ano aos falsários.
Entre os integrantes da quadrilha estão 13 funcionários do Detran-RJ, uma policial militar, donos de 21 auto-escolas, despachantes, examinadores e ‘zangões’ (espécie de despachantes informais). Onze acusados de envolvimento com a máfia conseguiram escapar da ação — desencadeada pela Corregedoria do Detran-RJ, Polícia Civil e Ministério Público (MP) — e estão foragidos. 

Na operação, que contou com a participação de 346 agentes das três instituições, também foram apreendidos R$ 145 mil em dinheiro. A maior parte — R$ 116 mil — foi encontrada em Niterói, na casa do chefe do posto do Detran de Rio Bonito, Francisco Furtado Pinheiro, que fugiu.
 Arte: O Dia
Arte: O Dia
'Zangona'

Outra suspeita de ter destaque na estrutura da quadrilha é a ‘zangona’ Ângela Maria Azevedo do Vale, que atuaria em vários postos na Região Metropolitana. Ela foi presa em casa, em São Gonçalo, com as filhas Paola de Cassia Azevedo Rangel e Suelen Azevedo Rangel, também são acusadas de integrar o grupo.



No imóvel, os policiais encontraram dinheiro, celulares e documentos oficiais de candidatos que não poderiam sair dos postos do Detran.

De acordo com as investigações que começaram em novembro de 2009, a quadrilha atuava em pelo menos 11 municípios do estado, incluindo a capital. Os valores cobrados variavam entre R$ 800 e até R$ 4 mil para aprovar um candidato nos exames clínicos, teóricos e práticos de direção.

Com média de 200 ‘clientes’ por mês, estima-se que o grupo tenha conseguido emitir mais de 4.800 carteiras de motorista de forma irregular. A maioria dos acusados vai responder por formação de quadrilha, falsificação de documento público e corrupção ativa. “A quadrilha atuava em todas as etapas do processo. Garantiam a aprovação até de quem não sabia dirigir ou que não teria condições clínicas”, destacou o corregedor do Detran-RJ, David Anthony. Durante a investigação, o Detran gravou imagens da ação do bando.

Molde de silicone

A sofisticação dos métodos utilizados pela quadrilha para fraudar o processo de emissão de carteiras de habilitação impressionou até mesmo os delegados responsáveis pelas investigações. Para evitar que o candidato precisasse comparecer aos locais de prova para registrar a presença, através da impressão digital, os fraudadores tiveram a ideia de criar um molde de silicone.

 Foto: Fabio Gonçalves / Agência O Dia
Delegado Gabriel Ferrando mostra silicone com digitais de candidato | Foto: Fabio Gonçalves / Agência O Dia
Assim, era possível reproduzir as digitais dos ‘clientes’ sem que eles estivessem presentes no local. “Com esse moldes, os candidatos não precisavam comparecer nem às aulas teóricas, nem às provas de legislação ou prática, porque sua presença era registrada nos aparelhos de biometria através destes moldes, sem que ele estivesse presente”, explicou o delegado Gabriel Ferrando, da Delegacia de Defraudações (DDEF).

Segundo ele, durante a operação de ontem foram apreendidos mais de 50 moldes de silicone em várias autoescolas.

“Esse artifício utilizado pelos integrantes da quadrilha permitia que os exames fossem feitos por funcionários das autoescolas e dos postos de vistoria que substituíam os verdadeiros candidatos. Isso garantia que não haveria risco de serem reprovados”, concluiu o delegado.
POR MAHOMED SAIGG 
Colaborou Marcello Victor

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