Hospital particular do Rio guarda lixo hospitalar ao lado alimentos destinados ao consumo de pacientes


Caminhão de lixo apreendido tinha material com sangue e remédios dentro da validade
Sérgio Vieira
As irregularidades observadas por agentes da Polícia Federal durante inspeção nos hospitais da Rede D´Or revelam o tamanho do descaso com o descarte adequado do lixo infectado das unidades. Imagens que constam no inquérito da Delegacia do Meio Ambiente da PF mostram várias caixas de mamão e de outros alimentos destinadas ao consumo de pacientes armazenadas de maneira inadequada ao lado de dezenas de sacos de lixo contaminados no hospital da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro.
O Barra D´Or é a unidade da rede destinada a pacientes com alto poder aquisitivo, onde frequentemente artistas e autoridades procuram tratamento médico. O inquérito foi aberto após a polícia apreender cerca de 830 kg de tecidos, entre lençóis e roupas hospitalares, na quarta-feira (19), em Ilhéus, na Bahia. O material seria de instituições de saúde de São Paulo e do Rio, entre elas unidades da rede D’Or. 

No hospital da zona oeste, na área destinada ao lixo comum e orgânico, os agentes federais também encontraram material utilizado em CTI (Centro de Tratamento Intensivo) e em pós-operatório. Algumas caçambas com sacos da área chamada “amarela”, onde é localizado o semi-intensivo, estavam fora do depósito e em condições impróprias. 

Segundo o delegado Fábio Scliar, à frente das investigações, a cena encontrada na unidade hospitalar é alarmante e mostra completo desleixo com o descarte dos resíduos. 

- Impressiona uma rede desse porte estar numa situação tão inadequada. A gente sabe que é caro dar o tratamento adequado, que seria o autoclave [processo que esteriliza o lixo, considerado seguro e o mais moderno para detritos hospitalares] ou a incineração. Por isso acontece este tipo de crime, porque é muito mais barato despejar como lixo comum. 

Na ocasião, o chefe do setor do lixo do Barra D’Or foi preso após a polícia flagrar o despejo de lixo hospitalar no local destinado a material orgânico, o que caracteriza crime ambiental. 

Em nota, o hospital Barra D’Or informou que “dispõe de processos transparentes e bem gerenciados em relação ao seu fluxo de resíduos, de forma a garantir a segurança de suas operações. E que, na visita feita pela Polícia Federal hoje (quinta-feira), não houve até o momento a constatação de nenhuma irregularidade que possa determinar risco para o consumidor, cliente ou colaborador”. 

Sangue, seringa e remédios no lixo do Quinta D´Or 

Na tarde desta sexta-feira (21), agentes da Polícia Federal fizeram os primeiros procedimentos para periciar omaterial apreendido no caminhão que saía de outra unidade da rede de hospitais, o Quinta D´Or, em São Cristóvão, zona norte do Rio. 

Em poucos minutos, a PF encontrou seringas, objetos perfurantes, material com sangue e até remédios dentro do prazo de validade. Todos serão utilizados como prova para incriminar os responsáveis pela Rede D´Or e a empresa que fazia o traslado do lixo contaminado para o aterro sanitário de Itaboraí, região metropolitana do Estado, de acordo com a Polícia Federal. 

- A empresa que faz o transporte do lixo hospitalar, embora administrativamente o hospital seja solidário, tem sua responsabilidade. Vamos ouvir os dirigentes dessas empresas para saber de fato o que está acontecendo. 

Estes materiais se encontram dentro de grupos de resíduos considerados perigosos e quem possuem resolução específica para descarte. De acordo com a Resolução RDC nº 33/03 da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), foram encontrados materiais do grupo A (potencialmente infectantes), do grupo B (químicos), do grupo D (resíduos comuns) e do grupo E (perfurocortantes). 

Todos estes deveriam ter sido incinerados ou esterilizados, de acordo com as condições de cada resíduo, mas seguiam para aterro sanitário destinado ao lixo comum, conforme apontou a PF. 

Além de responderem criminalmente, aqueles que desobedecem aos critérios estabelecidos pela Anvisa podem ser punidos de acordo com a Lei 6.437/77, que prevê de notificação a multas, que vão de R$ 2.000 a R$ 1,5 milhão. As vigilâncias sanitárias estaduais e municipais são responsáveis pela fiscalização. 

A empresa prestadora de serviço de limpeza também terá que comprovar que seus profissionais foram treinados para realizar o serviço, além de explicar porque fazia o transporte para local inadequado. 

Essa é uma das principais exigências para que as empresas possam participar das licitações para este tipo de serviço. 

Descarte inadequado em todo o Brasil 

Segundo o Atlas de Saneamento 2011, publicado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 42% dos municípios brasileiros depositam o lixo hospitalar junto com o lixo comum. Esta situação é mais frequente principalmente nas regiões Norte e Nordeste, mas também acontece em municípios das regiões Centro-oeste, Sul e Sudeste, segundo o IBGE.

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