Carlos Sepúlveda em 'Diário de Alexandria'


HORAS MORTAS


            Surpreendi-me, numa incerta madrugada, a cogitar sobre este mania absolutamente improdutiva de viver com o pensamento. Parece uma obstinação inútil esta forma de apartar-me do mundo. Pois quando mergulhamos no pensamento acordamos um ego diferente daquele que habita nossos dias. Falo do ego-pensante.
            O pensamento é uma “coisa” além dos nossos sentidos, até mesmo do sexto de nossos sentidos que é o senso comum. O pensamento-coisa vai se desenrolando em frases sutis, aparentemente desconexas, mas que, de repente, formam algum sentido, quase sempre repetidos de algum pensador ilustre que pensou antes de nós. Mas o prazer de se saber próximo dos grandes filósofos, como uma ressonância de leituras passadas, ainda assim é um imenso prazer. Boa parte de nossa cultura é feita de esquecimento.
            A verdade é que pensamos pouco, pouco e mal, sobretudo no Brasil. Temos uma espécie de inapetência para as especulações, principalmente as filosóficas. Não basta a presença da morte ou o mistério da natureza, do mundo. Sabemos que ele existe antes e depois de nós, resiste ao tempo, e resistirá sempre, até que deixe de existir, coisa que jamais seremos capazes de ver ou de saber.
            Falei de prazer: quero dizer prazer intelectual. Esse prazer solitário que não se pode comparar com uma sexualidade oprimida ou perversa, mas com uma espécie de fruição incomunicável. Quem pensa como um pensador está condenado ao silêncio, à solidão, ao solipsismo. Algumas vezes, à loucura, como Nietzsche.
            Confesso que tentei, inúmeras vezes, deixar de pensar e dedicar-me à vida ativa, a vida da competição feroz pelo vil metal, mas logo passa. As vezes em que ela resultou de alguma empreitada empresarial, conheci o desastre da falência. Desisti.
            Hoje que minha velhice progride rumo à terra ignota, ao Desconhecido, prefiro continuar pensando as coisas que meus livros me ensinam, na mais feliz e produtiva solidão, incomunicável como uma ostra, exceto nestas colunas que a amizade delicada que minha querida amiga Flora me dedica, como uma dessas humildes delicadezas que a vida nos preparada.
            Também aprendi, na dureza do cotidiano, que ninguém escapa ao naufrágio das ilusões, nem você, gentil leitor, nem eu.

Comentários