Glossário da sabedoria e do senso comum

Diário de Alexandria

GLOSSÁRIO
DA
SABEDORIA E DO SENSO COMUM
SEGUNDO O JAGUNÇO RIOBALDO
TATARANA DISSERTOU EM 3 DIAS
E 3 NOITES PARA SEU OUVINTE
MISTERIOSO.

 DO AMOR
            MAS ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – e escuro, escuros
            O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.
            Amizade dada é amor.
            Ah! A flor do amor tem muitos nomes.
            Ah! Meu senhor! – como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário.
            Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
O amor só mente para dizer maior verdade.


            DA CONFIANÇA
            Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa.
            Acho que sempre desgostei de criaturas que com pouco e fácil se contentam.

            DO CONSELHO
            Ah! Conselho de amigo só merece por ser leve, feito aragem de tardinha palmeando em lume-dágua

            DA CONVIVÊNCIA
            A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é a regra do rei!
A colheita é comum, mas o capinar é sozinho.
            Um sentir é do sentente, mas o outro é do sentidor.

            DO JAGUNÇO E DO HOMEM
            Riobaldo, homem, eu, sem pai, sem mãe, sem apego nenhum, sem pertencências.
            O jagunço Riobaldo. Fui eu. Fui e não fui. Não fui – porque não sou, não quero ser. Deus esteja.
            Sempre fui assim, descabido, desamarrado.
            Um homem, coisa fraca em si, macia mesmo, aos pulos de vida e morte, no meio das duras pedras.

            DEUS
            Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve.
            Deus existe mesmo quando não há.
            Tudo tem seus mistérios.
            Deus é uma plantação
            Moço! Deus é paciência. O contrário é o diabo.
            Senhor sabe: Deus é definitivamente; o demo é o contrário dele.

            DA DOR
            A dor não pode mais do que a surpresa.

            DA VIDA E DA EXISTÊNCIA.
            Viver é negócio muito perigoso.
            Passarinho que se debruça – o vôo já está pronto.
            Tudo sobrevém.
            Viver é um descuido prosseguido
            O mal ou o bem, estão é em quem faz; não no efeito que dão.
            O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe.
            Deveras se vê que o viver da gente não é tão cerzidinho assim?
            O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.
            Comigo, as coisas não têm hoje e ant’ontem, amanhã é sempre.
            Esta vida é de cabeça – para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas.
            Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar.
            A gente – o que vida é – é para se envergonhar.
            Cansaço faz tristeza, em quem dela carece.
            O bom da vida é para o cavalo, que vê capim e come.
            Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda hora a gente está num compito.
            Todo caminho da gente é resvaloso.
            O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente e coragem.
            No estado de viver, as coisas vão enriquecidas com muita astúcia: um dia é todo esperança, o seguinte para a desconsolação.
            Ah, as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente.
            A vida é mutirão de todos.
            Um lugar conhece outro é por calúnias e falsos levantados, as pessoas também, nesta vida.
            A vida é um vago variado.
            A vida é muito discordada. Tem partes, tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem caras todas do Cão, e as vertentes do viver.
            Picapau voa é duvidando do ar.
            Sossego traz desejos.
            Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.

            DA FELICIDADE
            Perto de muita água, tudo é feliz.

            DO HUMANO
            Homem? É coisa que treme.
            Jagunço não passa de ser homem muito provisório.
            Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza.
            Ser forte é parar quieto; permanecer.
            Existe é homem humano. Travessia.

            DA LEALDADE
            Cavalo que ama o dono, até respira do mesmo jeito.

            DA MOCIDADE
            Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.

            DO ÓDIO, DO AMOR
            O ódio – é a gente se lembrar do que não deve-de; amor é a gente querendo achar o que é da gente.

            DO PARENTESCO
            Parente não é o escolhido – é o demarcado.
           
            DA POBREZA
            Pobre tem de ter um triste amor à honestidade.

            DO PODER
            De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo medo.
            A primeira coisa, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as invejas dos outros restantes...
            Que comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem.
            Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta.

            DO REAL
            Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
            Do que o que: o real roda e põe adiante.

            DO RISO
            Rir, antes da hora, engasga.

            DO SABER
            Sujeito muito lógico, o senhor sabe: cega qualquer nó.
            Quem desconfia, fica sábio.
            Pessoa limpa, pensa limpo. Eu acho.
            Mestre não é quem sempre ensina, mas quem – de repente – aprende.
            A gente só sabe bem aquilo que não entende.
            Esquecer, para mim, é quase igual a perder dinheiro.

            DO SERTÃO
            Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso.
            Sertão é onde o homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada.
            Sertão é o sozinho
            Sertão é dentro da gente.
            Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo.
            Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor.
            O sertão é uma espera enorme.

            DA SAUDADE
            Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.

            DO SILÊNCIO
            Ficar calado é que é falar nos mortos.

Carlos Sepúlveda

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