Serra sem sons: festival com Milton Nascimento em Friburgo acaba na polícia


Produtores do Serra Sons, em Lumiar, fogem da cidade, cancelam o evento e revoltam o público
Jorge Lourenço e Paulo Marcio Vaz
O show de Milton Nascimento, principal atração do show, foi cancelado
O festival de música popular Serra Sons, realizado em Lumiar, distrito de Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, terminou em decepção. O evento, cuja programação incluía Lulu Santos, Zeca Baleiro, Alceu Valença e marcaria o reencontro de Milton Nascimento com o Clube da Esquina foi cancelado durante sua realização, e revoltou o público. Na madrugada de sábado para domingo, após o segundo dia de shows - o festival começou na sexta-feira, e terminaria na terça - os produtores do festival sumiram da cidade, anunciaram o cancelamento dos espetáculos restantes e deixaram várias contas a pagar, de acordo com a prefeitura local.


Os dois primeiros dias do Serra Sons transcorreram com alguns problemas. O cantor Lulu Santos se apresentou na sexta-feira para um público pequeno de cerca de1.500 pessoas - a previsão era de 8 mil espectadores - segundo a Polícia Militar. Apesar da pouca audiência, o show transcorreu sem problemas. Já a apresentação de Alceu Valença, no sábado, não foi tão tranquila. Apesar de agradar o público, a apresentação por pouco não ocorreu, pois a produção do evento não havia complementado o cachê do artista no prazo estabelecido em contrato. Na mesma noite, a apresentação do Cantor Zeca Baleiro foi cancelada, com o público recebendo a notícia horas antes, e sem a possibilidade de reaver o dinheiro dos ingressos. A não apresentação do cantor maranhense alimentou boatos de que alguns dos artistas não teriam recebido devidamente o cachê, desistindo de participar. O temor se confirmou na manhã de domingo, após os produtores do evento, ainda de madrugada, fugirem da cidade, segundo a PM, deixando para trás dívidas e descontentamento.
Desolados, funcionários que ficaram sem receber conversam em meio ao desmonte da estrutura
Desolados, funcionários que ficaram sem receber conversam em meio ao desmonte da estrutura
"Tomamos ciência disso lá pelas 9h", afirmou o tenente Marx, da Polícia Militar, que montava guarda na entrada do local por volta das 12h de domingo, em meio a espectadores atônitos e com ingressos nas mãos. "Eles (os produtores) abandonaram uma casa alugada às 4h. Avisamos aos colegas policiais na região, mas não temos muitas pistas do paradeiro".
Segundo a prefeitura de Nova Friburgo, após os dois primeiros dias de show, a subsecretaria de Guarda Municipal e Posturas já tinha lavrado autos de infração totalizando mais de R$ 200 mil reais pelo não cumprimento das condições impostas pelo órgão para a realização do evento, entre elas, o limite de horário para o término dos shows. 
Decepcionado ao receber a notícia sobre o cancelamento, o público foi instruído pelos PMs a registrar queixa na delegacia local contra a produção do Serra Sons. 
Comerciantes chegaram a pagar R$ 4 mil para montar estandes de venda de comida e bebida dentro do evento, e funcionários que trabalharam na montagem da estrutura ficaram sem receber.
"A orientação para prestar queixa procede e foi uma orientação nossa mesmo", explica André Luís Santos, subsecretário de Guarda Municipal e Posturas de Nova Friburgo. "Até porque é a via legal em situação desse tipo. Essas pessoas adquiriram os ingressos (R$ 50 por dia) e se programaram para ficar na cidade por vários dias. Ao meu ver, e também do delegado que está recebendo as queixas, isso pode ser classificado como estelionato". 
Após a fuga de Lumiar, o produtor do evento, Anderson Pomar, se manifestou à distância, alegando às autoridades que o fracasso ocorreu por uma onda de ingressos falsos. Ele garante que, apesar do público de 1.500 pessoas, o show de Lulu Santos vendeu oficialmente apenas 11 bilhetes. Pomar também teria deixado a cidade, segundo ele, com medo de ameaças que teria recebido do público.
"Eu, particularmente, não acredito nessa versão (de ingressos falsos)", afirmou André Luíz. "Estive lá pela subsecretaria, e vi os membros da produção recebendo os ingressos do público. Em momento nenhum houve algum caso de ingresso falsificado. Acho que o que nós presenciamos foi o típico caso de um evento que tinha tudo para dar certo, mas fracassou graças à desorganização da produção".
Revolta
No rastro do Serra Sons, o que não faltou foi revolta. Comerciantes que alugaram pontos próximos ao evento ainda contabilizam os prejuízos. O dono do campo de futebol usado como palco também não recebeu os R$ 10 mil destinados ao aluguel da estrutura. Até os funcionários que ajudaram a desmontar a estrutura do evento no domingo foram prestar queixa, já que não receberam o combinado com a produção. 
"Só não aconteceu uma confusão de grandes proporções aqui porque era um público mais velho, com a cabeça mais tranquila. Não registramos qualquer ocorrência de violência. Os consumidores ficaram revoltados, mas se comportaram muito bem", elogia o subsecretário André Luís Santos. 
A professora Tânia Souza, que aproveitou o feriado prolongado para ir ao festival, não escondeu sua decepção com o evento. No entanto, ela não prestou queixa na delegacia porque não tinha expectativa de ver seu dinheiro de volta. 
"Desde o começo, tudo foi muito estranho. O show do Lulu Santos estava muito vazio e começamos a ficar sabendo da confusão durante o show do Alceu Valença. O problema é que a própria produção do evento não nos passava nada, ficávamos sabendo tudo através de boatos, que nem sempre se mostravam verdadeiros", conta Tânia. 
Para algumas pessoas, que foram a Lumiar para acompanhar todos os dias do evento, o prejuízo chegou a mais de R$ 500. O professor Thiago Rodrigues da Silva, também descrente em qualquer reembolso, viajou apenas para acompanhar o show de Milton Nascimento.
"Gastei R$ 170 só com hospedagem e ingresso, mas minhas perdas foram pequenas em relação a algumas pessoas que conheci. Teve gente que veio de outros estados para acompanhar aos shows e está perplexo com o que está acontecendo. Todos estão indo para a delegacia revoltados. Não recebemos qualquer explicação. Levei um balão firme nessa brincadeira", explica Thiago. 
A completa falta de informação fez com que vários rumores se espalhassem rapidamente pela cidade. Sem qualquer confirmação da organização, comentava-se que o produtor Anderson Pomar fora vítima de um AVC durante o festival, o que teria ocasionado a confusão. Só na manhã desta segunda-feira algumas pessoas tiveram acesso às explicações oficiais, ainda pouco convincentes. 
"Não é possível acreditar nessa história de ingressos falsificados", lamenta a professora Nathália Topini. "Todo mundo comprou pela Saraiva e pela Fenac, não tinha como ser falsificado. Na casa onde eu estava hospedada, tinha gente de outros estados. Tem gente chorando aqui na minha frente. É revoltante". 
JB online

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