Campos: vazamento de óleo deve mudar rotas de migração de animais marinhos


Bacia de Campos é um corredor migratório de espécies de peixes, aves e mamíferos
Divulgação / Marinha
 barco limpando
Aves podem confundir mancha de óleo com cardume de peixes
O vazamento de óleo na bacia de Campos, no litoral norte do Estado do Rio, deve afetar a rota migratória de peixes, mamíferos e aves, conforme informou Jaílson de Moura, especialista em vida marinha do Gemm (Grupo de Estudos sobre Mamíferos Marinhos) da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Ele sobrevoou o campo de Frade, onde uma rachadura no solo causou vazamento de óleo no início de novembro.


Cláudia Alcantara
O objetivo da vistoria foi fazer um estudo para o Inea (Instituto Estadual do Ambiente). Ele diz ter ficado assustado por não encontrar mamíferos marinhos naquela área, que é conhecida como corredor migratório.
- Esse acidente vai ter um impacto global. A maior parte dos animais que usam essa rota nasce e se reproduz em outros países e a vida deles está sendo afetada. As baleias, como a jubarte e a minc da Antártica, faziam essa mesma rota há centenas, milhares de anos e, agora, vão mudar essa trajeto.
O biólogo explica que essa situação pode causar a desorientação dos animais e até problemas na procriação, se eles não conseguirem retornar à rota original e encontrar os tradicionais locais onde se acasalam e se reproduzem.
Essa mudança também está sendo sentida pelos pescadores de Macaé, no norte do Estado. Aproximadamente 500 pescadoresdo município atuam em mar aberto e estão tendo que procurar novas áreas de pesca por causa do vazamento.
Monitoramento
Enquanto as colônias de pesca já começaram a sentir os efeitos do vazamento, a situação dos mamíferos marinhos ainda não foi devidamente apurada. Para o pesquisador da Fiocruz, é lamentável que não haja um monitoramento desses animais.
- Nas equipes que sobrevoam a área afetada, não há ninguém monitorando o aparecimento de animais marinhos.
Por meio de nota, o coordenador-geral de Petróleo e Gás do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente de Recursos Naturais), Cristiano Vilardo, confirmou que, durante os sobrevoos, “não se buscou especificamente observar ou registrar a presença de animais como baleias e golfinhos” e que, “para esse objetivo, seriam necessárias aeronaves adaptadas, com janelas do tipo bolha, para permitir uma visualização adequada do oceano”. Entretanto, ele informou que alguns técnicos comunicaram de forma informal que algumas baleias foram avistadas na região.
Há instituições que fazem monitoramentos na bacia de Campos e no litoral. Vilardo assegurou que essas instituições, por exigência do Ibama, deverão informar em caso de detectarem alguma anormalidade em relação à vida marinha. Segundo ele, até o momento, nada foi relatado.
Óleo x vida marinha
Foram registrados um vazamento de aproximadamente 440 mil litros de óleo na bacia de Campos. Por isso, Moura diz acreditar que o cheiro do óleo pode afastar algumas baleias e golfinhos. Muitos deles podem ter sido atingidos pelo material e deverão apresentar algum problema e até morrer.
- Alguns mamíferos podem ingerir o óleo pelos orifícios nasais, quando subirem para respirar e morrer. Se o óleo prende na pele, ele não vai morrer logo, mas pode apresentar lesões e piorar se ficar exposto ao sol.
O coordenador de Fauna da Secretaria do Ambiente de Macaé, o veterinário Gleidson Madalena lembrou que o óleo no mar também pode prejudicar outros animais, como pinguins, fragatas, garças e tartarugas marinhas.
- No início deste ano, atendemos quatro aves: três pinguins e uma garça. A garça estava muito fraca e não conseguimos salvá-la.
Os pinguins receberam tratamento e foram libertados em uma ilha do litoral de Macaé, de onde partiram em direção ao Polo Sul.

Moura destacou que as aves marinhas podem ser as mais afetadas pela contaminação de óleo.

- Esta área também é rota de migração de aves como atobás, petréis, entre outros. Eles podem confundir a mancha de óleo com cardumes. É comum encontrar aves mortas ou agonizando por causa do contato com o óleo. Quando o óleo entra nas penas, elas não conseguem mais voar e acabam morrendo de fome, porque não conseguem mais pescar, e de frio.
Multa de R$ 150 milhões


O Governo do Estado do Rio vai dar entrada no próxima terça-feira (13) em uma ação civil publica contra a petroleira exigindo uma indenização de R$ 150 milhões, o pagamento de um rigoroso monitoramento (por terra, mar e ar) governamental de suas atividades de extração de petróleo na bacia de Campos e financiamento de uma auditoria ambiental das atividades da empresa.

A empresa já foi multada em R$ 10 milhões pelo Ibama e recebeu três autuações da ANP (Agência Nacional do Petróleo).

Falha humana

O delegado da Polícia Federal Fábio Scliar já ouviu 25 pessoas sobre o vazamento de óleo. No dia 2 de dezembro, após ouvir o depoimento de 15 pessoas envolvidas no caso, ele concluiu que o vazamento foi causado por “falha humana”.

O responsável pela Delegacia Federal do Meio Ambiente e Patrimônio Histórico disse que mais pessoas podem ser convocadas para esclarecer o acidente no campo de Frade.

– Conforme vamos ouvindo as pessoas, novas fontes vão surgindo para auxiliar nas investigações.



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