'Diário de Alexandria' com Carlos Sepúlveda



DESPEDIDA

Puseram os antigos o tempo numa ampulheta e disseram que era areia.
E lá ficou a areia desfiando-se em infinitas estrias, dentro do vidro.
Puseram os antigos a areia numa ampulheta e disseram que era tempo.
E á ficou o tempo a destruir a inocência das coisas.
Um dia, rompida a ampulheta
Os homens disseram que o tempo escoava, como fina areia
Por nossos dedos.

Então, um deles, que nunca deixou de ser menino,
Suspeitou impossível deter o tempo.
Decidiu inventar a memória, sutil musa inconsútil,
Vivendo da coragem de viver a plenitude do instante.

Foi assim que o Tempo virou memória.
E o menino encantado abriu o peito em luz
E predicou: enquanto eu não foi homem serei imortal.

Talvez por isso
Somente as crianças são imortais,
Porque acreditam que a imortalidade
É olhar para as coisas como se fosse a primeira vez
E que todas as cores do mundo não valem a sombra de um instante.

Contudo, há de chegar a hora de cuidar das flores.
Depois, acolher os frutos na concha vazia das mãos.
É sempre tempo de reinventar
o milagre das sementes.

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