Em Campos, disperso no mar, óleo de vazamento pode chegar ao homem após virar comida de peixe


Segundo especialistas, acidente contaminou micro-organismos que alimentam peixes
Divulgação / Marinha
 barco limpando
Barcos jogaram água para acelerar degradação da mancha de óleo

O petróleo que vaza na bacia de Campos, no litoral norte do Rio, desde novembro passado, pode chegar ao prato da população fluminense. O óleo está sendo absorvido por micro-organismos da região tropical do oceano Atlântico e fazem parte da cadeia alimentar de peixes e crustáceos que são vendidos nos mercados de todo o Estado.


Cláudia Alcanara 
Esses organismos são comuns em regiões de clima quente e ajudam a fazer a limpeza natural do mar. Para o coordenador de Meio Ambiente do IFF-Guarus (Instituto Federal Fluminense), o geoquímico Gilmar Santos Costa, esse petróleo vai se acumulando nos organismos marinhos e pode provocar mudanças em suas estruturas. 

- A vida por onde essa mancha de óleo passar vai ser profundamente afetada, mas ainda é cedo para dimensionar essa mudança.

De acordo com especialistas ouvidos pelo R7, não há como prever em quanto tempo o ecossistema afetado pela mancha estará recuperado. Para a engenheira química Eliane Soares de Souza, especializada em geoquímica do petróleo na Uenf (Universidade Estadual do Norte Fluminense), "cada derrame de óleo é uma situação diferente, são muitas variantes a levar em consideração".

As oceanógrafas Cláudia Hamacher e Cássia Farias, professoras da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), explicam que são muitos fatores que devem ser levados em consideração na hora de fazer uma estimativa como essa.

- Tudo depende do tipo de óleo, da quantidade que vazou, das condições físico-químicas da água do mar, do grau de agitação das ondas, da iluminação e da dinâmica do local, além de fatores biológicos, tais como a presença de bactérias hidrocarbono capazes de degradar hidrocarbonetos de petróleo.
Calor e recuperação ambiental
O geoquímico Gilmar Costa lembra que há casos de vazamento de petróleo, onde mesmo depois de muitos anos ainda é possível encontrar óleo contaminando no ambiente.
- Até hoje, tem óleo no Alasca, onde aconteceu um derramamento no final da década de 80. Apesar de as condições ambientais serem muito diferentes, a recuperação pode durar até 20 anos.
Mas, para Eliane Souza, no caso do vazamento na bacia de Campos, as chances de recuperação são maiores por causa do clima quente.
- A região tropical tem mais biodiversidade e mais micro-organismos capazes de absorver o óleo. Eles são mais vorazes e potentes que nos locais onde o clima é mais frio. No caso do Alasca, a proximidade da costa tornou a situação ainda mais crítica, facilitando com que o óleo se misturasse à areia, dificultando ainda mais a limpeza. No mar, há mais organismos em condições de fazer uma limpeza natural.
O especialista em oceanografia biológica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Sérgio Bonecker acrescenta que o dano ambiental seria muito maior, se tivesse acontecido em uma área rica em vida marinha ou se a mancha de óleo caminhasse em direção a uma área com biodiversidade grande.
- A região onde aconteceu o vazamento [a mais de 1.200 m de profundidade] é um ambiente com pouca vida marinha. E, conforme o que está sendo divulgado, a mancha está caminhando para longe da costa e da plataforma continental [com até 200 m de profundidade], que são as área ricas em organismos marinhos.
Bonecker destaca ainda que o poder destrutivo do vazamento é maior no primeiro momento, quando é formada uma grande bolha de óleo capaz de sufocar animais marinhos, envolver plantas e grudar nas penas das aves, impedindo que elas voem. Depois dessa fase, quando a bolha se desmembra e o óleo começa a degradar, ele é absorvido.
A professora da Uenf, em Macaé, critica a ação de limpeza da mancha de óleo na bacia de Campos. Ela afirma que o desmembramento da mancha de óleo deveria acontecer só no final do processo, quando não fosse mais possível retirar o petróleo do mar. De acordo com a especialista, a petroleira começou com as manobras para degradar o óleo muito cedo.

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