Secretário executivo assume o posto de Lupi até reforma de janeiro de 2012




Conforme prometido na última sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff resolveu a situação de Carlos Lupi tão logo chegou da Venezuela. Ontem pela manhã, ela recebeu um e-mail do então ministro do Trabalho com a carta de demissão. Em seguida, ele telefonou para Dilma e os dois se encontraram no Palácio da Alvorada no início da noite, quando Lupi entregou pessoalmente a carta, que havia preparado no sábado. O gesto selou a separação depois de uma série de denúncias, declarações e bravatas do ministro, como o “Dilma, eu te amo”. O ministério agora fica a cargo do secretário executivo, Paulo Roberto Santos Pinto, interinamente, enquanto não vem reforma ministerial de janeiro. Até lá, a guerra nos bastidores pelo Ministério do Trabalho promete ser grande, uma vez que Dilma não deu qualquer garantia de que manterá o cargo com o PDT.
As declarações de Dilma na Venezuela foram o tiro de misericórdia, ou “a bala de prata”, que levou Lupi a entender que não havia saída: ou ele pedia demissão, ou Dilma o demitiria hoje, depois da reunião de coordenação do governo — aquela em que a presidente avalia a semana com os ministros do Palácio do Planalto. O PDT considerou que Dilma tinha sido muito clara ao dizer que não era propriamente uma pessoa “romântica”. Ela falou ainda que era dada a análises objetivas e que resolveria o assunto quando voltasse da viagem.


Para bons entendedores, o recado estava dado. “O que vale é o que diz a presidenta”, comentou com Lupi o presidente da Fundação Leonel Brizola Alberto Pasqualini, Manoel Dias, um dos que tentou convencer o ministro de que a situação estava difícil. Lupi, então, partiu para escrever a carta: “Tendo em vista a perseguição política e pessoal da mídia que venho sofrendo há dois meses sem direito de defesa e sem provas; levando em conta a divulgação do parecer da Comissão de Ética da Presidência da República — que também me condenou sumariamente com base neste mesmo noticiário sem me dar direito de defesa — decidi pedir demissão do cargo que ocupo, em caráter irrevogável”, disse Lupi, na carta. “Faço isso para que o ódio das forças conservadoras e reacionárias deste país contra o Trabalhismo não contagie outros setores do governo”, completou.



No fim da noite, foi a vez de Dilma. Nota da Secretaria de Imprensa e Divulgação do Planalto afirmava que a presidente agradecia “a colaboração, empenho e dedicação” do ministro e que “tem certeza de que ele continuará dando a sua contribuição ao país”. No mesmo texto, ela confirmava a indicação do secretário-executivo, Paulo Roberto Santos Pinto, “interinamente”.



A conversa entre Dilma e Lupi foi seca e rápida, uma vez que não havia muito mais o que dizer. Afinal, na quinta-feira, quando o ministro esteve com a presidente no Planalto, ele já havia feito toda uma defesa a respeito das acusações, muitas das quais o governo deu de ombros. Lupi dissera inclusive que não sabia que era proibido acumular cargos de assessoria, como fez, sendo um na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro e outro em Brasília, na Câmara Federal.

Com a saída de Carlos Lupi, o PDT espera recuperar fôlego e, assim, evitar que o Ministério do Trabalho caia nas mãos de representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT). A cada denúncia nova sobre Lupi crescia o nome de José Feijó, ex-vice-presidente da entidade, que, em abril, foi convidado para trabalhar com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Nos bastidores há quem diga que, se a presidente Dilma entregar o ministério para a CUT, a Força Sindical pode reunir as demais centrais e começar a bagunçar a vida no governo com manifestações por todo o país. Não por acaso, há alguns dias, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu alertou os petistas de que o partido já tinha ministérios demais e não valeria a pena comprar essa briga com o PDT.

Disputa
Os pedetistas, entretanto, consideram que dificilmente conseguirão manter o Ministério do Trabalho com a reforma de janeiro de 2012. A avaliação é a de que Dilma, se não deixar a pasta com a central, também não deixará com a Força Sindical, que tem o seu ex-presidente Paulo Pereira da Silva deputado federal pelo PDT. O parlamentar, mais conhecido como Paulinho da Força Sindical, estará hoje cedo em Brasília para uma reunião do partido, em que os pedetistas vão avaliar as chances de emplacar um dos seus para suceder Lupi. A ideia original é se antecipar a um pedido de Dilma e apresentar um nome. A presidente ainda não decidiu se manterá a pasta com o PDT ou oferecerá ao partido um posto menor, compatível com o tamanho da bancada, e dará o Trabalho ao PMDB, que, detentor de grande bancada, almeja ampliar espaço no Executivo, ou mesmo ao PSD, o partido de Gilberto Kassab, o prefeito de São Paulo recém-chegado à base governista.


O bilhete de adeus

Leia a carta de demissão de Lupi:
“Tendo em vista a perseguição política e pessoal da mídia que venho sofrendo há dois meses sem direito de defesa e sem provas; levando em conta a divulgação do parecer da Comissão de Ética da Presidência da República — que também me condenou sumariamente com base neste mesmo noticiário sem me dar direito de defesa — decidi pedir demissão do cargo que ocupo, em caráter irrevogável. Faço isto para que o ódio das forças mais reacionárias e conservadoras deste país contra o trabalhismo não contagie outros setores do governo. Foram praticamente cinco anos à frente do Ministério do Trabalho, milhões de empregos gerados, reconhecimento legal das centrais sindicais, qualificação de milhões de trabalhadores e regulamentação do ponto eletrônico para proteger o bom trabalhador e o bom empregador, entre outras realizações. Saio com a consciência tranquila do dever cumprido, da minha honestidade pessoal e confiante por acreditar que a verdade sempre vence.”

Carlos Lupi
Correio Brasiliense

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