Bombeiro detido no Rio é vítima de ‘prisão política’, afirma cabo da PM


Daciolo
Daciolo é um dos líderes do movimento dos bombeiros no Estado do Rio
A prisão do cabo Benevenuto Daciologuarda todos os componentes de um barril de pólvora, com o estopim aceso pela primeira prisão política no país, após o encerramento da ditadura militar. A descrição é do cabo da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro João Carlos Soares Gurgel. O cabo Gurgel, que acompanhou de perto a transferência do líder sindical para o presídio Bangu 1, no Complexo Penitenciário de Gericinó, Zona Oeste do Rio. Daciolo é um dos líderes do movimento organizado pelas forças auxiliares de Segurança do Estado por melhores salários e condições de trabalho. Ele foi preso na noite passada, ao desembarcar no Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, vindo de Salvador, por agentes da Corregedoria, e escoltado por policiais civis.
As escutas telefônicas realizadas por agentes dos setores de Informação do Estado foram ‘vazadas’ para o principal jornal de TV da imprensa conservadora e serviram de pano de fundo para a captura do cabo Daciolo. Minutos após a exibição do áudio no Jornal Nacional, da Rede Globo, o bombeiro militar era detido pela polícia. Nas gravações que, segundo o cabo Gurgel, “parecem ter sido cortadas”, Daciolo conversava com interlocutores sobre as negociações entre os policiais militares e bombeiros prevista para uma paralisação a partir desta sexta-feira.


– O que houve, na realidade, foi uma prisão arbitrária, com o único objetivo de esvaziar o movimento. Mas o governador Sérgio Cabral se esquece que estamos no Rio de Janeiro, às vésperas do carnaval. Uma atitude como esta, de prender um dos líderes de um movimento pacífico, que tem o único objetivo de reivindicar melhorias salariais e condições de trabalho mais dignas, tende a provocar uma reação contrária, na mesma intensidade. Bandido é que se amedronta com a demonstração de força da polícia. Cidadão de bem, trabalhador, diante de uma injustiça, tende a se revoltar e isso conduzir a uma revolta sem precedentes. Na Bahia apenas os policiais militares pararam. Aqui no Rio, a PM, a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros estão unidos. É preciso lembrar esse detalhe – afirmou o cabo Gurgel.
Em nota, o comando do Corpo de Bombeiros informa que Daciolo foi transferido para o presídio Bangu 1 “por questões de segurança”. Ele foi detido, inicialmente, no Quartel General da corporação, mas a possibilidade do local ser tomado, como em junho de 2011, fez com que ele fosse transferido para uma prisão de segurança máxima, onde permanecerá em prisão administrativa por crime militar por 72 horas, até que a Justiça decrete sua prisão preventiva.
Trechos da gravação divulgada no Jornal Nacional:
Mulher: Daciolo, Daciolo, presta atenção. Está errado fechar a negociação antes da greve do Rio…
Daciolo: Tudo bem, tudo bem… sabe o que vou fazer agora??? Ligue para ele que eu vou embora daqui, não vou ficar mais aqui.
Mulher: Eles não querendo que você avalize um acordo antes da greve do Rio. Depois da greve do Rio, muda tudo. Sabe como você vai ajudar eles? Voltando para o Rio, garantindo aqui. O governo vai fazer uma propostinha rebaixada para vocês, vai melhorar um pouquinho esse negócio que eles colocaram. E acho… se vocês garantirem a greve aqui, a mobilização aqui, vocês vão ajudar eles a liberar o Prisco, a ter uma negociação.
O governador Sérgio Cabral, solicitou ao colega baiano, Jacques Wagner, as cópias das gravações que tenham tido como interlocutor Daciolo ou qualquer outro servidor do Estado do Rio de Janeiro. E, por meio de seu aparato de imprensa, divulgou o conteúdo do pedido, na manhã desta quinta-feira.
Leia a íntegra do documento:
“Prezado Governador Jacques Wagner,
Tomei ciência pelo Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, que o bombeiro militar do Estado do Rio de Janeiro, cabo Benevevuto Daciolo, manteve conversas telefônicas, gravadas com autorização da Justiça, com diversos interlocutores, nas quais planejava estratégia de deflagração de atos grevistas no meu Estado que, se deflagrados, colocariam em risco a ordem pública. A fim de que eu possa tomar as providências cabiveis para a manutenção da ordem pública no Estado do Rio de Janeiro, solicito que me sejam enviadas cópias de todas as gravações que tenham tido como interlocutor o bombeiro militar acima referido ou qualquer outro servidor do Estado do Rio de Janeiro. Agradeço desde já a colaboração do Estado da Bahia na manutenção da ordem pública no Estado do Rio de Janeiro”.
Até o fechamento desta matéria não havia ainda qualquer pronunciamento do Tribunal de Justiça do Estado do Rio acerca do pedido de habeas corpus para Daciolo.

Comentários