Ex-policial lembra relações da ditadura com Globo e Folha


Paulo Bonchristiano, ex-Dops, diz que conversava com Roberto Marinho e Octávio Frias
O ex-policial José Paulo Bonchristiano, de 80 anos, resolveu quebrar o silêncio sobre um dos períodos mais sombrios da história brasileira. 
Em entrevista concedida à repórter Marina Amaral, do site Publica, uma agência de jornalismo independente, o ex-delegado lembrou os tempos em que trabalhava no Dops (Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo), uma espécie de polícia política que perseguia opositores da ditadura militar que governou o país por mais de 20 anos, entre 1964 e 1985.
Durante as conversas, ao revisitar suas memórias, Bonchristiano, que era conhecido pelo apelido “Paulão, Cacete e Bala”, contou que havia uma relação de proximidade entre o regime comandado pelas Forças Armadas e alguns dos principais grupos de comunicação do país. 
Na entrevista, o agente da repressão recordou que “Roberto Marinho, da Globo, passava no Dops para conversar com a gente quando estava em São Paulo”. Além disso, relatou que tinha trânsito livre também com Octávio Frias de Oliveira, dono do grupo que mantém o jornal Folha de S.Paulo. Bonchristiano disse que podia telefonar para ele “para pedir o que o Dops precisasse”.


Criado em 1924, o Dops de São Paulo encerrou suas atividades em 1983, ainda durante o regime militar. Entre 1977 e 1982, teve como diretor-geral o ex-senador Romeu Tuma, morto em 2010. Na entrevista, Bonchristiano afirmou que o órgão chegou a reunir fichas com dados de 200 mil pessoas consideradas suspeitas pelas Forças Armadas. 

Questionada pela reportagem, a Central Globo de Comunicação disse que a afirmação do ex-policial é “confusa”, pois ele “não diz em que circunstâncias ocorriam essas alegadas conversas” com Roberto Marinho. “O que é público e comprovadamente notório é que Roberto Marinho foi um protetor de perseguidos políticos”, acrescentou a assessoria da emissora.

O Grupo Folha também foi procurado pelo R7, mas não se pronunciou até a publicação desta nota.

Investigações

Bonchristiano vive em São Paulo e está aposentado há 27 anos. Ele trabalhou no Dops entre 1964, ano em que os militares derrubaram o presidente João Goulart e assumiram o poder, e 1983. Hoje, recebe uma pensão mensal de R$ 11 mil, de acordo com a reportagem.

Em duas décadas no poder, os militares foram acusados de cometer diversos crimes no combate às organizações de esquerda que se opunham ao regime. 

Atribui-se ao aparelho repressivo prisões ilegais, sequestros, torturas, lesões corporais, estupros e homicídios. De acordo com o site Publica, que se ampara em estimativas da Procuradoria da República, cerca de 30 mil pessoas teriam sido vítimas do regime militar.

Com o objetivo de lançar luz sobre os anos de chumbo, a presidente Dilma Rousseff assinou no ano passado a criação da Comissão da Verdade. 

O órgão, a ser composto por sete integrantes indicados pelo Palácio do Planalto, terá a missão de investigar os crimes cometidos pela repressão. No entanto, não haverá julgamentos. 

A Lei de Anistia, em vigor desde 1979, impede que militares sejam levados ao banco dos réus - algo que já ocorreu na Argentina, onde até ex-presidentes foram condenados à prisão perpétua pelas violações de direitos humanos cometidas pelo governo.

A Comissão da Verdade também foi tema da reportagem com o ex-delegado Bonchristiano. Perguntado sobre o assunto, ele disse que não tem intenção de colaborar com as investigações que poderão ser iniciadas.

- Não vou depor. Acho bobagem. Nunca pratiquei irregularidades, mas não sou dedo duro e não vejo utilidade nessa comissão.


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